7 de Dezembro

II DOMINGO DO ADVENTO – Ano B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA cf. Is 30, 19.30
Povo de Sião: eis o Senhor que vem salvar os homens.
O Senhor fará ouvir a sua voz majestosa
na alegria dos vossos corações.
Não se diz o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Concedei, Deus omnipotente e misericordioso,
que os cuidados deste mundo não sejam obstáculo
para caminharmos generosamente ao encontro de Cristo,
mas que a sabedoria do alto
nos leve a participar no esplendor da sua glória.
Ele que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Is 40, 1-5.9-11
«Preparai o caminho do Senhor»

Leitura do Livro de Isaías
Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém e dizei-lhe em alta voz que terminaram os seus trabalhos e está perdoada a sua culpa, porque recebeu da mão do Senhor duplo castigo por todos os seus pecados. Uma voz clama: «Preparai no deserto o caminho do Senhor, abri na estepe uma estrada para o nosso Deus. Sejam alteados todos os vales e abatidos os montes e as colinas; endireitem-se os caminhos tortuosos e aplanem-se as veredas escarpadas. Então se manifestará a glória do Senhor e todo o homem verá a sua magnificência, porque a boca do Senhor falou». Sobe ao alto dum monte, arauto de Sião! Grita com voz forte, arauto de Jerusalém! Levanta sem temor a tua voz e diz às cidades de Judá: «Eis o vosso Deus. O Senhor Deus vem com poder, o seu braço dominará. Com Ele vem o seu prémio, precede-O a sua recompensa. Como um pastor apascentará o seu rebanho e reunirá os animais dispersos; tomará os cordeiros em seus braços, conduzirá as ovelhas ao seu descanso».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 84 (85), 9ab-10.11-12.13-14 (R. 8)
Refrão: Mostrai-nos o vosso amor
e dai-nos a vossa salvação. Repete-se
Ou: Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia.
Repete-se
Escutemos o que diz o Senhor:
Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis.
A sua salvação está perto dos que O temem
e a sua glória habitará na nossa terra. Refrão

Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade,
abraçaram-se a paz e a justiça.
A fidelidade vai germinar da terra
e a justiça descerá do Céu. Refrão

O Senhor dará ainda o que é bom
e a nossa terra produzirá os seus frutos.
A justiça caminhará à sua frente
e a paz seguirá os seus passos. Refrão

LEITURA II 2 Pedro 3, 8-14
«Esperamos os novos céus e a nova terra»

Leitura da Segunda Epístola de São Pedro
Há uma coisa, caríssimos, que não deveis esquecer: um dia diante do Senhor é como mil anos e mil anos como um dia. O Senhor não tardará em cumprir a sua promessa, como pensam alguns. Mas usa de paciência para convosco e não quer que ninguém pereça, mas que todos possam arrepender-se. Entretanto, o dia do Senhor virá como um ladrão: nesse dia, os céus desaparecerão com fragor, os elementos dissolver-se-ão nas chamas e a terra será consumida com todas as obras que nela existem. Uma vez que todas as coisas serão assim dissolvidas, como deve ser santa a vossa vida e grande a vossa piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus, em que os céus se dissolverão em chamas e os elementos se fundirão no ardor do fogo! Nós esperamos, segundo a promessa do Senhor, os novos céus e a nova terra, onde habitará a justiça. Portanto, caríssimos, enquanto esperais tudo isto, empenhai-vos, sem pecado nem motivo algum de censura, para que o Senhor vos encontre na paz.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Lc 3, 4.6
Refrão: Aleluia. Repete-se
Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas
e toda a criatura verá a salvação de Deus. Refrão

EVANGELHO Mc 1, 1-8
«Endireitai os caminhos do Senhor»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Está escrito no profeta Isaías: «Vou enviar à tua frente o meu mensageiro, que preparará o teu caminho. Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas’». Apareceu João Baptista no deserto, a proclamar um baptismo de penitência para remissão dos pecados. Acorria a ele toda a gente da região da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém e eram baptizados por ele no rio Jordão, confessando os seus pecados. João vestia-se de pêlos de camelo, com um cinto de cabedal em volta dos rins, e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. E, na sua pregação, dizia: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu baptizo-vos na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos caríssimos: Oremos a Deus, Pai de bondade, e peçamos-Lhe com fé que nos faça acolher o Salvador, implorando (ou: cantando), humildemente:

R. Vinde, Senhor Jesus. Ou: Ouvi-nos, Senhor. Ou: Vinde, Senhor, e salvai-nos.

1. Pela santa Igreja, pela nossa Diocese e suas paróquias, pelos que aí preparam os caminhos do Senhor e proclamam o baptismo de penitência, oremos.

2. Por todos os que têm autoridade, pelos que seguem os caminhos da justiça, e pelas vítimas dos homens sem escrúpulos, oremos.

3. Pelos que esperam os novos céus e a nova terra, pelos que perderam toda a esperança no futuro e pelos que consolam e animam os desalentados, oremos.

4. Pelos esposos que têm dificuldades em conviver, pelos que sentem a alegria de se amar e pelos pais decepcionados com seus filhos, oremos.

5. Pelos mais pobres da nossa comunidade (paroquial), pelos que abandonaram os caminhos do Senhor e por aqueles a quem Deus toma em seus braços, oremos.

Senhor, nosso Deus, que não cessais de chamar à conversão os que foram baptizados na água e no Espírito Santo, fazei-nos acolher com verdadeira fé Aquele que João Baptista anunciava. Por Cristo Senhor nosso
ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Olhai benignamente, Senhor,
para as nossas humildes ofertas e orações
e, como diante de Vós não temos méritos,
ajudai-nos com a vossa misericórdia.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Prefácio do Advento I

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Bar 5, 5; 4, 36
Levanta-te, Jerusalém, sobe às alturas e vê a alegria
que vem do teu Deus.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Saciados com o alimento espiritual,
humildemente Vos pedimos, Senhor,
que, pela participação neste sacramento,
nos ensineis a apreciar com sabedoria os bens da terra
e a amar os bens do Céu.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Fazei penitência!

A vestimenta e os hábitos de São João Batista destoavam muito dos costumes daquela sociedade. O contraste dos homens impuros e gananciosos com aquela figura reta, simples, eloquente, e que bradava “Fazei penitência!”, deixava as consciências profundamente abaladas.

 

 

I – O mal no universo criado

À medida que progride, a ciência vai desvendando mara­vilhas insuspeitadas na vastidão sideral. Constantemen­te se descobrem novos corpos celestes, muitos deles de fulgurante beleza, dispostos em espaços astronômicos fora de qualquer padrão humano, locomovendo-se com velocidades as­sombrosas, numa delicada e sublime harmonia, reflexo da per­feição do Criador.

Se essa constatação nos causa explicável admiração, consi­deremos que Deus, em sua onipotência, poderia ter criado infini­tos universos, com infinitas outras criaturas, e esses infinitos seres estariam em sua presença por toda a eternidade. Dentro de cada um desses mundos, bem saberia Ele como a História se desenvol­veria a cada instante, pois, como sublinha São Pedro na segunda leitura (II Pd 3, 8-14) deste domingo do Advento, “para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia” (II Pd 3, 8).

É próprio da Providência Divina ordenar os males para o bem

Ora, como conceber que Deus, sendo onipotente e a Bon­dade em substância, tenha criado este nosso universo onde o pecado pôde se fazer presente já na revolta de Lúcifer, antes da queda de nossos primeiros pais? Por qual razão lhes permitiu Ele a possibilidade de cair? Não teria sido melhor criar uma hu­manidade incapaz de se deixar arrastar por delírios como a cons­trução da Torre de Babel?

Perguntas como estas afligiram homens de todas as eras e tornam-se pungentes, sobretudo em nossos dias tão marcados pelo hedonismo e pela aversão a qualquer sofrimento. Ante elas cabe lembrar a doutrina de São Tomás de Aquino, segundo a qual “não é incompatível com a bondade divina permitir que ha­ja males nas coisas governadas por Deus”.1

Para justificar sua afirmação, o Doutor Angélico aduz, en­tre outras razões, a seguinte: “Se o mal fosse totalmente excluído das coisas, daí se seguiria a eliminação de muitos bens. Portanto, não é próprio da Providência Divina excluir todo o mal das coi­sas, mas sim ordenar a algum bem os males que se produzem”.2

Com grande beleza literária desenvolve este assunto o padre Monsabré: “O mal é, de si, odioso, mas a industriosa Providência sabe tirar dele proveito em favor do bem. Do espetáculo da iniqui­dade triunfante, Ela faz nascer o desejo de uma perfeição sublime que compensa, aos olhos de Deus, as humilhações de nossa nature­za degradada; da perseguição dos maus Ela colhe virtudes heroicas, méritos que não conseguiríamos adquirir numa vida tranquila, sa­crifícios sangrentos que, unidos ao Sacrifício da Cruz, enriquecem o precioso tesouro da Redenção; das agressões do erro Ela faz surgir admiráveis manifestações da verdade. A corrupção romana gera o eremitismo da Tebaida, o furor dos carrascos multiplica os mártires, a insolência da heresia chama ao combate os Irineus, os Atanásios, os Hilários, os Cirilos, os Ambrósios, os Agostinhos, os Jerônimos, todo o batalhão sagrado dos Doutores”.3

O mesmo autor acrescenta: “Percorrei a história das catás­trofes e nela vereis sempre o mal condenado a favorecer a causa do bem: os erros incitando à procura da verdade, as heresias tra­zendo à luz os dogmas, as invasões dos bárbaros rejuvenescen­do o sangue e as virtudes dos povos, as revoluções flagelando grandes crimes e dando duras e salutares lições à depravação das leis, dos usos e costumes, as perseguições fazendo germinar a gloriosa raça dos mártires, o preço do Calvário consumando a Redenção do mundo”.4

A libertação anunciada por Isaías

Dentre os numerosos episódios do Anti­go Testamento em que vemos Deus suscitar o bem dos males que afligiam o povo judeu, basta lembrar, por exemplo, o período do cativeiro no Egito (cf. Ex 1, 8-22), finali­zado com Moisés, ou ainda, com maior propriedade, o exílio na Babilônia, ao qual nos remete a primeira leitura (Is 40, 1-5.9-11) deste domingo.

Encontravam-se os judeus sob a férula babilônica, chorando e ex­piando os pecados cometidos, quan­do, em certo momento, Deus se compadeceu deles e enviou-lhes o profeta Isaías para anunciar a es­perada libertação: “Consolai o meu povo, consolai-o! ― diz o vosso Deus. Falai ao coração de Jerusalém e dizei em alta voz que sua servidão acabou e a expiação de suas culpas foi cumpri­da” (Is 40, 1-2).

As palavras do profeta indicam com clareza ter chegado a hora do perdão para o povo de Deus. Ele tomou a iniciativa de tirá-lo do cativeiro, impondo-lhe apenas uma condição: “Prepa­rai no deserto o caminho do Senhor, aplainai na solidão a estra­da de nosso Deus. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as as­perezas” (Is 40, 3-4).

Trata-se aqui de uma linguagem simbólica usada para significar realidades espirituais. Com efeito, o profeta convida seu povo a abater o orgulho, que leva o homem a julgar-se um deus; a atuar com retidão, corrigindo as ideias erradas; e a eli­minar as asperezas geradas na alma pelo amor-próprio e pelo egoísmo. Isto feito, estarão criadas as condições para o Criador manifestar sua bondade e seu poder.

Mas a libertação profetizada por Isaías transborda os limites da Antiga Aliança, devendo ser entendida no seu sentido primor­dialmente messiânico: “Eis o vosso Deus, eis que o Senhor Deus vem com poder, seu braço tudo domina: eis, com Ele, sua con­quista, eis à sua frente a vitória. Como um pastor Ele apascenta o rebanho, reúne, com a força dos braços, os cordeiros e carrega-os ao colo; Ele mesmo tange as ovelhas-mães” (Is 40, 9-11).

Assim, a primeira leitura deste domingo, de diáfana e ri­quíssima simbologia, prepara nossas almas para a chegada do Redentor.

II – A voz que clama no deserto

A Liturgia de hoje nos apresenta o início do Evangelho de São Marcos, chamado por São Justino de Memórias de Pedro,5 pois o Evangelista, discípulo e intérprete do Apóstolo, teve uma só preocupação ao escrevê-lo: inteira fideli­dade a tudo quanto ouvira de seu mestre.6

Por isso, comenta um autor do século passado: “Através de seu grego hebraizante, apoiados nos antigos testemunhos e no exame interno do livro, podemos reconhecer emocionados a inconfundível fisionomia de São Pedro […]. Este é o Evangelho de Pedro, composto com singeleza por seu discípulo, sem pre­tensões literárias, a não ser a de reproduzir as pregações de seu mestre”.7

Muito significativo é o fato de ter sido redigido este se­gundo sinóptico em Roma, para um ambiente no qual predominavam os gentios convertidos. Com efeito, segundo narra Eusébio de Cesareia,8 a origem deste manuscrito está nos insistentes pedidos feitos a Marcos pelos ouvintes do Príncipe dos Apóstolos. Eles o impor­tunaram com todo gênero de exortações a compor um memorial escrito da doutri­na que lhes fora transmitida de viva voz. E não deixaram o Evangelista em paz en­quanto este não conseguiu finalizar sua tarefa.

Mensagem central da pregação de São Pedro

1 Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.

Vivaz e direto como seu mestre, São Marcos começa o rela­to mostrando já na primeira linha a ideia central que vai orientar e pervadir seu Evangelho: Cristo é verdadeiro Homem e verda­deiro Deus.

Com o intuito de defender diante de seus ouvintes a perso­nalidade divina de Jesus, São Pedro ressaltava em sua pregação o domínio supremo do Filho de Deus sobre as forças da natu­reza, sobre os corações e sobre os próprios demônios, os quais tantas vezes os gentios cultuavam como deuses. É este o motivo de São Marcos citar muitos milagres não relatados nos outros sinópticos, a ponto de seu livro ser conhecido como o Evangelho dos Milagres.9

Cumpre-se a antiga profecia

2 Está escrito no Livro do Profeta Isaías: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. 3 Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!’”

São João inicia seu Evangelho remontando-se à geração eterna do Verbo. São Mateus dedica os primeiros versículos do seu a enumerar os antepassados do Messias segundo a carne. E São Lucas abre sua narração contando em detalhes a miraculosa concepção de João Batista, prelúdio da Encarnação de Cristo no seio da Virgem Santíssima, por obra do Espírito Santo.

O de São Marcos, porém, o mais breve dos quatro, abre-se com as preliminares do ministério público de Jesus. “Era natu­ral que o discípulo preferido de São Pedro começasse seu rela­to no ponto onde o Príncipe dos Apóstolos colocava o início da pregação evangélica”,10 observa Fillion.

Para introduzir o tema, ele proclama com solenidade uma das frases de Isaías relembradas na primeira leitura. Nela, o An­tigo e o Novo Testamento, por assim dizer, se osculam reveren­tes. A “voz daquele que grita no deserto” toma vida concreta na pessoa do Precursor. A profecia anunciadora da libertação do jugo babilônico reveste-se de um sentido muito mais atual e pro­fundo: a necessidade da conversão e da emenda de vida diante do anúncio da Boa-nova que vai começar.

O maior dos homens e dos profetas

4 Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados. 5 Toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam os seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 6 João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo.

A vestimenta e os hábitos do Batista destoavam muito dos costumes daquela sociedade. Ele “representava a penitência; representava, portanto, o jejum, a flagelação, a solidão no de­serto, a mortificação. E por causa disso seu corpo tinha a pele bronzeada por mil sóis ardentes do Oriente Médio. Ele era forte e, entretanto, muito magro, de tal maneira os jejuns o haviam consumido. Era também a própria representação da severidade cheia de bondade”.11

Deambular por regiões despovoadas, vestido com a áspera pele de camelo, alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre, constituíam sinais inequívocos de vida ascética. Antes já se ti­nham espalhado “por todas as montanhas da Judeia” (Lc 1, 65) as miraculosas circunstâncias do seu nascimento. Tudo isso con­tribuiu para fixar na opinião pública a figura de uma pessoa completamente incomum.

Não por acaso retirou-se ele para o deserto, lugar tantas vezes escolhido por Deus para Se comunicar com os homens. O isolamento proporciona uma perspectiva de eternidade muito difícil de alcançar no meio das agitações da vida social. Bem sa­biam disso os anacoretas, como Santo Antão, os quais fugiam do convívio humano e se instalavam em lugares ermos, em busca de condições mais favoráveis para o contato com o sobrenatural.

A nobreza de alma e o desprendimento do Precursor são postos em realce por essa escolha. Sendo parente do Messias — a Virgem Maria era prima de sua mãe, Santa Isabel —, podia ele perfeitamente ter permanecido na casa de seus pais, bene­ficiando-se de um convívio mais próximo com Jesus. Mas, dócil ao sopro do Espírito Santo, tomou o caminho do deserto, dando extraordinário exemplo de flexibilidade à voz da graça.

São João Batista foi, em suma, uma figura ímpar na histó­ria de Israel. O tetrarca Herodes o considerava homem justo e santo, e o protegia. Temia-o e gostava de ouvi-lo, embora suas palavras o deixassem desconcertado. Seus ouvintes chegaram a se perguntar se ele não era o Cristo. Contudo, o maior dos elo­gios feitos ao Precursor saiu dos lábios divinos de Nosso Senhor: “entre os nascidos de mulher não há maior que João” (Lc 7, 28).

Com efeito, dentre todos os profetas do Antigo Testamen­to, só ele teve a incomparável glória de encontrar-se pessoalmente com o Divino Salvador e apontá-Lo em termos inteiramente claros: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).

A alma desse mensageiro tinha de estar à altura da sua missão. Superior a Abraão, a Moisés e ao próprio Isaías, a Divi­na Providência quis fazer dele o arauto por antonomásia. “Deus quer que ele seja grande porque sua missão é grande, porque foi escolhido para preceder tão de perto Aquele que deve vir”.12

Uma nação convulsionada pela pregação de João

Ao encontro do Batista acudiam, como vimos em São Mar­cos, habitantes de “toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém”. A esses se somaram pessoas “de toda a circun­vizinhança do Jordão” (Mt 3, 5) e até galileus, como André, o irmão de Simão (cf. Jo 1, 35-42).

“Podemos imaginar” — observa Bento XVI — “a impres­são extraordinária que a figura e a mensagem de João Batista deviam provocar na efervescente atmosfera de Jerusalém da­quela época. Finalmente estava de novo ali um profeta, cuja própria vida o identificava como tal. Finalmente se anuncia de novo a ação de Deus na História”.13

Movido por um impulso sobrenatural, o povo judeu sentia haver naquela figura austera o prenúncio de algo grandioso. Por isso acorriam todos a confessar-lhe suas faltas e receber o batis­mo de suas mãos. A pregação de João convulsionara essa nação que há cerca de quatrocentos anos não ouvia a voz de um profe­ta e precisava ser preparada para receber o Messias.

O Precursor produzia um verdadeiro choque naquelas pessoas acostumadas a se preocupar exclusivamente com as coisas da Terra, adoradoras do conforto e da vida agradável. Ao contrário da maioria dos seus ouvintes, comenta o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira, “ele é desprendido, é um facho ardente de amor a Deus. Só vive para a realização da missão que ele tem. Só tem Deus diante dos olhos”.14

E o mesmo autor acrescenta: “Àquele povo que esperava um Messias temporal, um rei poderoso, João aparecia falando do Messias. De um Messias que era anunciado não por um guer­reiro, nem por um potentado, mas por um penitente.

“O contraste dos homens impuros e gananciosos com aquele homem reto, simples, eloquente, e que bradava ‘Fazei penitência!’, deixava as consciências profundamente abaladas. São João Batista despertava um enorme sentimento de vergonha. No contato com ele, as pessoas compreendiam que não podiam ser assim. E o Pre­cursor completava o efeito, dizendo: ‘Endireitai os caminhos do Se­nhor… Aí vem o Messias… O dia de Deus está próximo’”.15

Entreabrem-se as portas da Revelação

7 E pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. 8 Eu vos batizei com água, mas Ele vos batizará com o Espírito Santo”.

Ao fazer tal afirmação, o Batista dá ideia da força moral, espiritual e sobrenatural d’Aquele que haveria de vir. E mostra, ao mesmo tempo, a humildade de sua alma, pois competia aos servos “desamarrar as sandálias” e lavar os pés dos visitantes.

Podemos imaginar o impacto produzido por semelhante asserção nos seus ouvintes, acostumados a vê-lo enfrentar com energia fariseus e saduceus. “O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo” (Mt 3, 10), ameaçava-os sem temor. Mara­vilhados, sem dúvida, com seus ensinamentos, procuravam os discípulos do Precursor imaginar a grandeza desse outro perso­nagem de tal maneira superior a ele.

No entanto, enquanto preparava o povo judeu para seu encontro com o Messias, São João Batista foi entreabrindo as portas da Revelação que o próprio Filho de Deus vinha trazer. Já nestes versículos transparece o dogma da Santíssima Trinda­de. Neles estão presentes, de algum modo, o Pai, Deus do povo eleito, o Filho, que estava sendo anunciado, e o Espírito Santo, aqui mencionado junto com o anúncio do Batismo sacramen­tal. São João revela-se, de fato, como um homem inspirado por Deus, pois demonstra conhecer um dos principais mistérios da Fé, antes mesmo da pregação do Divino Mestre.

Ao dar início a vida pública de Jesus, o Precursor vai pau­latinamente desaparecer: “Nisso consiste a minha alegria, que agora se completa. Importa que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3, 29-30), vai afirmar. E, logo após, deixará como derradeiro ensinamento um dos mais belos reconhecimentos da divindade de Cristo:

“Aquele que vem de cima é superior a todos. Aquele que vem da Terra é terreno e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do Céu é superior a todos. Ele testemunha as coisas que viu e ouviu, mas ninguém recebe o seu testemunho. Aquele que recebe o seu teste­munho confirma que Deus é verdadeiro. Com efeito, Aquele que Deus enviou fala a linguagem de Deus, porque Ele concede o Espí­rito sem medidas. O Pai ama o Filho e confiou-Lhe todas as coisas. Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; quem não crê no Filho não verá a vida, mas sobre ele pesa a ira de Deus” (Jo 3, 31-36).

III – Uma entrega que prepara a alma para o Natal

O tempo litúrgico do Advento nos leva a participar, de cer­ta forma, dos anseios de todos quantos no Antigo Testa­mento aguardaram com fidelidade a vinda do Messias, e a viver o clima de grandiosa expectativa alentado pelo Precursor.

Necessidade de “conversão incessante”

Passaram-se dois mil anos desse acontecimento histórico, todavia para Deus não há ontem nem amanhã, e sim apenas um eterno “hoje”. Como dos israelitas cativos na Babilônia, ou dos judeus da época de Jesus, Ele espera de nós a conversão.

Desejando que ninguém se perca, o Criador usa de paciên­cia para conosco enquanto espera nos encontrar “numa vida pura e sem mancha e em paz” (II Pd 3, 14), como afirma São Pedro na segunda leitura de hoje. Para isso, Deus nos convida, poder-se-ia dizer, a cada hora, cada minuto, cada segundo, a nos emendarmos de nossos desvios e imperfeições.

À primeira conversão deve seguir-se uma conversão inces­sante. Não basta dizer: “Sou cristão. Já me converti!”. Ou como o jovem rico do Evangelho: “tudo isso tenho observado desde a minha mocidade” (Mc 10, 20). Ou quiçá: “Confessei-me e passei do estado de pecado mortal para o estado de graça”. É preciso que a cada dia cresça nosso amor.

Portanto, por muito que alguém progrida nas vias da virtu­de, sempre haverá pontos nos quais é possível melhorar. Nosso Senhor nos convida a estarmos com os olhos continuamente postos no plus ultra, no “duc in altum” (Lc 5, 4), isto é, ousando sempre lançar as redes mais longe, com o coração transbordante de grandes desejos para a máxima glória de Deus.

Solução ao alcance de qualquer um de nós

Analisando as coisas por este prisma, cabe perguntar: não teremos nós algo concreto a entregar a Jesus antes de comemo­rarmos mais uma vez, neste ano, o seu nascimento na Gruta de Belém? Talvez o rompimento de uma amizade inconveniente ou perigosa, por cuja causa nos afastamos d’Ele, ou quiçá a re­núncia ao desmedido apego a um determinado bem, ou alguma situação, que com frequência acaba por nos conduzir ao peca­do. A Liturgia nos inspira hoje a depor aos pés da Virgem Mãe qualquer defeito capaz de nos impedir de receber com ardente devoção o Menino Deus.

Não temos obrigação de, neste Advento, nos esforçarmos para acondicionar do melhor modo possível a “gruta” da nos­sa alma, a fim de Jesus não encontrar nela um ambiente mais frio e inóspito que o da Gruta de Belém? Examinemo-nos com cuidado para saber a quantas andamos nesse sentido. Haverá sem dúvida falhas a sanar em nosso procedimento. Quais? E desvios a retificar em nossa vida. Quais?

Se, feito esse balanço, o resultado nos for desfavorável e não sentirmos ânimo suficiente para corrigir esses defeitos, a solução está ao alcance de qualquer um de nós: recorrer com filial confiança a Nossa Senhora, Refúgio dos Pecadores. Ela nos obterá de seu Divino Filho graças para uma completa vitó­ria sobre todas as nossas falhas e desvios. Pois Jesus Cristo — que quis permanecer cati­vo durante nove meses em seu seio pu­ríssimo, dependendo d’Ela em todas as coisas, e A coroou como Ra­inha do Céu e da Terra — não deixará de atender as súplicas por Ela feitas em favor de seus devotos.

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1) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Compendium Theologiæ. L.I, c.142.

2) Idem, ibidem.

3) MONSABRÉ, OP, Jacques-Marie-Louis. Le bon grain et l’ivraie. In: Conférences de Notre-Dame de Paris. Retraites Pascales 1881-1882. 6.ed. Paris: P. Lethielleux, 1905, v.V, p.25-26.

4) MONSABRÉ, OP, Jacques-Marie-Louis. L’infalibilité, la sainteté et le mal. In: Exposition du Dogme Catholique. Gouvernement de Dieu. Carême 1876. 9.ed. Paris: L’Année Dominicaine, 1892, v.VI, p.205-206.

5) Cf. SÃO JUSTINO. Dialogus cum Tryphone. C.CVI, n.1: MG 6, 201-201.

6) Cf. EUSÉBIO DE CESAREIA. Historia Eclesiástica. L.III, c.39, n.15. Madrid: BAC, 1973, v.I, p.194.

7) CABALLERO, SJ, José. Introducción. In: MALDONADO, SJ, Juan de. Comenta­rios a los Cuatro Evangelios. Evangelios de San Marcos y San Lucas. Madrid: BAC, 1951, v.II, p.3.

8) Cf. EUSÉBIO DE CESAREIA, op. cit., L.II, c.15, n.1, p.88.

9) Cf. FILLION, Louis-Claude. La Sainte Bible commentée. Paris: Letouzey et Ané, 1912, t.VII, p.194.

10) Idem, p.197.

11) CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 17 nov. 1972.

12) BEATO COLUMBA MARMIÓN. Jesus Cristo nos seus mistérios. Conferências espirituais. 2.ed. Lisboa: Ora & Labora, 1951, p.122.

13) BENTO XVI. Jesus de Nazaré. Do Batismo no Jordão à Transfiguração. São Paulo: Planeta, 2007, p.31.

14) CORRÊA DE OLIVEIRA, op. cit.

15) Idem, ibidem.