25 de Outubro

XXX DOMINGO DO TEMPO COMUM – Ano A

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 104, 3-4
Alegre-se o coração dos que procuram o Senhor.
Buscai o Senhor e o seu poder,
procurai sempre a sua face.

ORAÇÃO COLECTA
Deus eterno e omnipotente,
aumentai em nós a fé, a esperança e a caridade;
e para merecermos alcançar o que prometeis,
fazei-nos amar o que mandais.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Ex 22, 20-26
«Se fizerdes algum mal à viúva e ao órfão,
inflamar-se-á a minha ira contra vós»

Leitura do Livro do Êxodo
Eis o que diz o Senhor: «Não prejudicarás o estrangeiro, nem o oprimirás, porque vós próprios fostes estrangeiros na terra do Egipto. Não maltratarás a viúva nem o órfão. Se lhes fizeres algum mal e eles clamarem por Mim, escutarei o seu clamor; inflamar-se-á a minha indignação e matar-vos-ei ao fio da espada. As vossas mulheres ficarão viúvas, e órfãos os vossos filhos. Se emprestares dinheiro a alguém do meu povo, ao pobre que vive junto de ti, não procederás com ele como um usurário, sobrecarregando-o com juros. Se receberes como penhor a capa do teu próximo, terás de lha devolver até ao pôr do sol, pois é tudo o que ele tem para se cobrir, é o vestuário com que cobre o seu corpo. Com que dormiria ele? Se ele Me invocar, escutá-lo-ei, porque sou misericordioso».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 17 (18), 2-3.7.47.51ab (R. 2)
Refrão: Eu Vos amo, Senhor: sois a minha força. Repete-se

Eu Vos amo, Senhor, minha força,
minha fortaleza, meu refúgio e meu libertador.
Meu Deus, auxílio em que ponho a minha confiança,
meu protector, minha defesa e meu salvador. Refrão

Na minha aflição invoquei o Senhor
e clamei pelo meu Deus.
Do seu templo Ele ouviu a minha voz
e o meu clamor chegou aos seus ouvidos. Refrão

Viva o Senhor, bendito seja o meu protector;
exaltado seja Deus, meu salvador.
O Senhor dá ao Rei grandes vitórias
e usa de bondade para com o seu Ungido. Refrão

LEITURA II 1 Tes 1, 5c-10
«Convertestes-vos dos ídolos
para servir a Deus e esperar o seu Filho»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo São Paulo
aos Tessalonicenses
Irmãos: Vós sabeis como procedemos no meio de vós, para vosso bem. Tornastes-vos imitadores nossos e do Senhor, recebendo a palavra no meio de muitas tribulações, com a alegria do Espírito Santo; e assim vos tornastes exemplo para todos os crentes da Macedónia e da Acaia. Porque, partindo de vós, a palavra de Deus ressoou não só na Macedónia e na Acaia, mas em toda a parte se divulgou a vossa fé em Deus, de modo que não precisamos de falar sobre ela. De facto, são eles próprios que relatam o acolhimento que tivemos junto de vós e como dos ídolos vos convertestes a Deus, para servir ao Deus vivo e verdadeiro e esperar dos Céus o seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos: Jesus, que nos livrará da ira que há-de vir.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 14, 23
Refrão: Aleluia. Repete-se
Se alguém Me ama, guardará a minha palavra,
diz o Senhor;
meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada.
Refrão

EVANGELHO Mt 22, 34-40
«Amarás o Senhor teu Deus e o próximo como a ti mesmo»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo, os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus, reuniram-se em grupo, e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar: «Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?». Jesus respondeu: «‘Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito’. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo, porém, é semelhante a este: ‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’. Nestes dois mandamentos se resumem toda a Lei e os Profetas».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Caríssimos cristãos: Oremos para que os discípulos de Jesus ponham em prática o duplo mandamento do amor, inscrito no coração de todo o homem, dizendo (ou: cantando), com fé e humildade:

R. Lembrai-Vos, Senhor, do vosso povo.

Ou: Ouvi-nos, Senhor.

Ou: Tende compaixão de nós, Senhor.

1. Pelo Papa N., pelos bispos e presbíteros, pelos diáconos e fiéis, para que se entreguem, com ardor e sem descanso, ao serviço do Deus vivo e da sua Palavra, oremos.

2. Pelos povos onde a guerra parece não ter fim e pelas famílias onde já não há amor, para que Deus lhes renove a esperança, oremos.

3. Pelos pobres, os explorados e os órfãos e por aqueles que a sociedade põe de lado, para que encontrem quem os ame e os acolha, oremos.

4. Pelos homens e mulheres não violentos, para que Deus seja a sua força nos combates que tiverem de travar, oremos.

5. Pela nossa assembleia dominical, para que a Palavra que nela escutámos nos leve a falar e a viver como Jesus, oremos.

Senhor, Pai santo, que sabeis amar e perdoar sempre, concedei a estes vossos filhos, que escutaram a vossa Palavra, a graça de Vos imitar no amor e no perdão. Por Cristo Senhor nosso

 

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Olhai, Senhor, para os dons que Vos apresentamos
e fazei que a celebração destes mistérios
dê glória ao vosso nome.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO cf. Salmo 19, 6
Celebramos, Senhor, a vossa salvação
e glorificamos o vosso santo nome.

Ou Ef 5, 2
Cristo amou-nos e deu a vida por nós,
oferecendo-Se em sacrifício agradável a Deus.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Fazei, Senhor, que os vossos sacramentos
realizem em nós o que significam,
para alcançarmos um dia em plenitude
o que celebramos nestes santos mistérios.
Por Nosso Senhor.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A sabedoria humana contra a Sabedoria divina!

A questão apresentada pelo fariseu a Jesus sai de lábios trabalhados pela sabedoria humana para ouvidos plenos da Sabedoria divina. O doutor da Lei não pergunta para conhecer a verdade, mas sim para tentá-Lo. A resposta de Jesus é simples e ao mesmo tempo grandiosa: o amor a Deus!

I – A virtude do amor

Os fundamentos do amor são muito mais profundos do que geralmente se imagina. Sendo ele um peso que ar­rasta aqueles que se amam — segundo afirma Santo Agostinho1 —, produz um vigoroso desejo de presença e união, exteriorizado no abraço como melhor símbolo.

Ora, tudo quanto existe tem sua fonte na onipotência divi­na, inclusive o amor, cujo princípio é eterno e procede do Pai e do Filho. Ambos, ao Se amarem, originam essa tendência com tão extraordinária força que dela procede uma Terceira Pessoa. Assim como o amor produz em nós uma inclinação em relação ao ser amado, Pai e Filho, seres infinitamente amáveis, amam seu próprio Ser Divino. Aí está a origem do Amor, enquanto Pessoa procedente da união entre Pai e Filho.

O Gênesis, ao narrar a grande obra da criação, descre­ve como Deus contemplava a realização de cada dia e atribuía um valor respectivo à obra saída de seu poder, pois o grau de perfeição de cada ser sempre é infundido por seu amor, e na proporção deste.

A virtude mais importante para a salvação

Já no Evangelho, verifica-se quanto o Filho de Deus louva a fé do centurião (cf. Lc 7, 9) e da cananeia (cf. Mt 15, 28), pre­miando-a com milagres. Mais adiante, Cristo exalta a fé de Pe­dro, declarando proceder esta de uma revelação feita pelo Pai, e o proclama bem-aventurado (cf. Mt 16, 17).

Entretanto, Jesus nos fala também de uma virtude que é, por si só, capaz de perdoar um enorme número de pecados, che­gando a defender publicamente uma pecadora contra aqueles que a acusavam: “porque ela tem demonstrado muito amor” (Lc 7, 47). Com efeito, não podemos nos esquecer de como o Senhor conhece o valor e o prêmio de cada ato de virtude. De­vemos, por isso, face à salvação eterna, compreender como é mais importante amar do que praticar a fé.

Jesus, supremo modelo de amor

Para se atingir o mais alto grau de perfeição desta virtude é indispensável admirá-la em Cristo Jesus e imitá-Lo.

O amor do Filho de Deus é todo especial, por se desenvol­ver por um prisma sobrenatural e ter por objeto o Ser Supremo. Há, portanto, uma notável diferença entre Ele e nós. No Verbo Encarnado, o amor divino e o humano, pela união hipostática, se reúnem numa só Pessoa. Quanto a nós, “o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5, 5), ou seja, ele nos é dado. Para poder alcançá-lo, devemos pedi-lo.

Apesar desta diferença, Jesus é o nosso insuperável mode­lo, pois é impossível encontrar n’Ele qualquer sombra de inte­resse que não seja a glória do Pai. Assim também deve ser o nos­so amor. E, se bem que em Jesus nunca tenha havido fé — pois, desde o primeiro instante de sua existência, a alma d’Ele este­ve na visão beatífica —, em nós esta virtude deve estar sempre acompanhada de um caloroso amor, o mais semelhante possível ao de Jesus.

A fé do cristão e a fé dos demônios

Comentando a Primeira Epístola de São João, diz Santo Agostinho: “‘Porque também os demônios creem e tremem’ (Tg 2, 19), como diz a Escritura. Que mais puderam os demô­nios crer do que no que creram? Dizem: ‘Sabemos quem és, o Filho de Deus’ (Mc 1, 24). O que disseram os demônios, disse-o também São Pedro. […] Pedro diz: ‘Tu és Cristo, o Filho de Deus vivo’. Dizem também os demônios: ‘Sabemos que és o Filho de Deus e o Santo de Deus’. Pedro diz o mesmo que dizem os de­mônios. O mesmo quanto às palavras, muito diferente quanto ao espírito.

“E como consta que Pedro dizia isso com amor? Porque a fé do cristão está sempre acom­panhada de amor, mas a fé do demônio não tem amor. De que modo é sem amor? Pedro dizia isso para abra­çar Cristo, enquanto os demônios o diziam para Cristo afastar-Se deles. Porque antes de dizer ‘sabemos quem és, Tu és o Filho de Deus’, haviam dito: ‘Que temos nós que ver contigo? Por que vieste perder-nos antes do tem­po?’. Uma coisa, pois, é con­fessar Cristo com intenção de abraçá-Lo, e outra muito dife­rente é confessar Cristo com propósito de apartá-Lo de si.

“Logo, claro está que quando, nesta passagem, João diz: ‘aquele que crê’, exprime uma fé peculiar e verdadeira, não aquela que muitos têm. Portanto, irmãos, que nenhum herege venha dizer-nos: ‘Nós também cremos’. Pois justamente por este motivo vos apresentei o exemplo dos demônios, a fim de que não vos alegreis com as palavras dos que creem, mas examineis as obras de sua vida”.2

Aquele que ama o Pai, ama o Filho

O grande Bispo de Hipona confere tanta importância a que à fé se una o amor, que não se intimida em continuar com seus comentários a esse respeito, levando suas afirmações a ponto de talvez chocar certas mentalidades mais relativistas dos dias de hoje: “‘E todo aquele que ama quem gera, ama o que por ele é gerado’. Juntou em seguida o amor à fé, pois a fé sem amor é vã. Com amor, é a fé do cristão; sem amor, a fé do demônio. Ora, os que não creem são piores e mais empedernidos que os próprios demônios. Quem não quer crer em Cristo nem sequer imita os demônios. Quem crê em Cristo, mas O odeia, tem a confissão de fé para o temor da pena, não para o amor da coroa. Pois também os demônios temiam ser castigados. Acrescenta a esta fé o amor, a fim de que se converta naquela fé da qual fala o Apóstolo: ‘A fé que opera pelo amor’ (Gal 5, 6), e encontraste o cristão, o cidadão de Jerusalém, o concidadão dos Anjos, o peregrino que suspira pelo caminho. Une-te a ele, seja ele teu companheiro, corre junto com ele, caso também tu sejas isso. ‘Todo aquele que ama quem gerou, ama o que por Ele foi gerado’. Quem gerou? O Pai. Quem foi gerado? O Filho. Logo, o que quer dizer com esta frase ante­rior? Todo aquele que ama o Pai, ama o Filho”.3

No amor encontramos a tão procurada felicidade

Tão vastas são as considerações sobre a virtude do amor, que não haverá enciclopédia capaz de abarcar os tesouros ema­nados da oratória e da pluma dos Santos, Padres, Doutores, teó­logos e exegetas a respeito da mesma.

É justamente em função do amor que devemos contem­plar a temática levantada pela Liturgia deste 30º Domingo do Tempo Comum, em suas três leituras. Nessa virtude encontra­mos a tão procurada felicidade, como nos ensina São Tomás de Aquino: “Sendo amor a Deus, faz-nos desprezar as coisas terre­nas e unir-nos a Ele. Por isso afasta de nós a dor e a tristeza, e dá-nos a alegria do divino: ‘o fruto do Espírito Santo é caridade, alegria, paz’ (Gal 5, 22)”.4 E com razão, pois Ele é o dulcis Hos­pes animæ, o Amigo por excelência que habita nas almas em es­tado de graça.

II – O amor é a plenitude da Lei

Tramas dos fariseus contra Jesus

Naquele tempo, 34 os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, 35 e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-Lo: 36 “Mestre, qual é o maior Mandamento da Lei?”

O Evangelho de hoje se insere num encadeamento de fa­tos que se inicia com a pregação de Jesus por meio da parábola dos vinhateiros homicidas (cf. Mt 21, 33-43), que levou os adversários de Cristo — na sua totalidade, segundo São Marcos, ou somente os fariseus, de acordo com São Ma­teus — a se exacerbarem em cólera, pois interpretaram-na como dirigida a eles (cf. Mt 21, 45) e, por este motivo, reuniram-se em conselho (cf. Mt 22, 15). Nessa linha de acontecimentos, São Marcos é muito explícito ao afirmar: “Procuravam prendê-Lo, mas temiam o povo […]. E deixando-O, retiraram-se. Enviaram­-Lhe alguns fariseus e herodianos, para que O apanhassem em alguma palavra” (Mc 12, 12-13).

Na realidade, se havia criado um verdadeiro impasse. De um lado, estava um grande número de pessoas simples do po­vo, arrebatadas pelas palavras e milagres de Jesus, e que não O abandonavam; de outro, os chefes que desejavam silenciá-Lo em vida, ou causando-Lhe a morte. Impossível se tornava para estes executarem tal crime enquanto Ele estivesse cercado pe­las multidões. Também a noite não lhes facilitava a tarefa, pois o Divino Mestre abraçava o isolamento sem que ninguém sou­besse para onde Se retirava. Tornava-se indispensável para estes filhos de Belial manobrar a opinião pública a fim de separar os entusiastas d’Aquele que julgavam ser João Batista ressuscitado, ou talvez Elias, ou um grande profeta.

A pergunta do doutor da Lei

Pertence a essa sequência de investidas a famosa resposta de Jesus: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22, 21), como também a explicação sapiencial com a qual fizera calar os saduceus (cf. Mt 22, 29-32), confun­dindo-os pela grosseira questão relacionada com a ressurreição dos mortos. É na esteira dessa polêmica que se acrescenta a per­gunta do tal doutor da Lei.

Não é inteiramente claro se esse homem propõe a questão ao Mestre por autêntica curiosidade ou por desejo de aparecer como sábio, ou até mesmo por fazer parte do complô contra Ele. Os três sinópticos relatam o episódio em sua integridade. São Mateus opta pela hipótese de ser ele cúmplice e malicioso. São Marcos o vê como um homem sincero, pelo fato de Nosso Senhor ter afirmado não estar ele longe do Reino do Céu (cf. Mc 12, 34). Não seria descabida, contudo, a suposição de soma­rem-se todas essas interpretações, pois era possível tratar-se de um fariseu de boa-fé, trabalhado pela maldade dos outros fari­seus, a fim de lançá-lo sobre o Messias e colocá-Lo em situação difícil.

Sobre o personagem em foco, afirma o famoso Maldo­nado: “Diz-nos Lucas que, quando Cristo acabou de refutar os saduceus, um escriba exclamou: ‘Mestre, falaste bem. E já não se atreviam a fazer-Lhe pergunta alguma’ (Lc 20, 39-40). Isso deve ser entendido com relação aos saduceus, pois pre­cisamente por esta resposta, como indica Mateus, os escribas e fariseus tomaram ocasião de tentá-Lo outra vez, para mos­trarem-se mais sábios que os saduceus. Aquele que aqui Ma­teus chama de doutor da Lei, Marcos diz que era escriba (cf. Mc 12, 28); por onde se vê que, embora os escribas tivessem diversos ofícios, em algumas ocasiões podia-se ser escriba e fa­riseu ao mesmo tempo. Pois esse doutor da Lei era fariseu, se­gundo se vê pelo versículo 34”.5

Já o Cardeal Isidro Gomá y Tomás, assim avaliou esta pas­sagem: “Os fariseus se mancomunaram quando ouviram dizer que Ele havia reduzido ao silêncio os saduceus, fechando-lhes o caminho a qualquer réplica — não sem uma íntima satisfação de sua parte, pois tinham os saduceus como seus mais formidá­veis adversários doutrinários. A derrota dos adversários deveria tê-los tornado mais cautos, mas a inveja e a malevolência são mães da audácia inescrupulosa. Um deles, então — doutor da Lei, do partido dos fariseus, que tinha ouvido o debate e vis­to como Nosso Senhor respondera bem —, foi o escolhido para representá-los e propor a Jesus a questão que haviam tramado em seus conciliábulos. Aproximou-se e Lhe fez a pergunta, ten­tando-O, com má intenção, embora a resposta de Jesus o tenha impressionado, elogiando Jesus e, por sua vez, merecendo o elo­gio do Senhor”.6

Lei humana e Lei divina

Conforme nos ensina o Doutor Angélico, sabemos ser a lei, em si, “uma ordenação da razão para o bem comum, pro­mulgada por aquele que tem o cuidado da comunidade”.7 Evi­dentemente, esta é uma definição que tem em vista a natureza humana no seu relacionamento social. No entanto, continua o próprio São Tomás, “além da lei natural e da lei humana, foi necessário, para direção da vida humana, ter a Lei divina”.8 E entre quatro claríssimos argumentos a favor de sua tese, ele de­monstra essa necessidade em função de um fim ao qual se orde­na o homem, que é superior à faculdade humana, ou seja, sua bem-aventurança eterna.

E afirma ainda: “porque, em razão da incerteza do juízo humano, principalmente sobre as coisas contingentes e parti­culares, aconteceu haver a respeito dos diversos atos humanos juízos diversos, dos quais também procedem leis diversas e contrárias. Para que o homem, pois, sem qualquer dúvida pos­sa conhecer o que lhe cabe agir e o que evitar, foi necessário que, nos atos próprios, ele fosse dirigido por lei divinamente dada, a respeito da qual consta que não pode errar”.9

Todavia, não devemos nos esquecer que o Céu nos torna iluminado o caminho a seguir, mas o auxílio para abraçá-lo nos vem da graça: “O princípio que move exteriormente ao bem é Deus, que nos instrui pela Lei e ajuda pela graça”.10 Hoje, pela força do Espírito Santo, temos muito explícita essa doutrina, mas deste modo não se apresentava para os doutores da Lei e nem mesmo para os fariseus. Os rabinos viviam emaranhados em complicadas casuísticas de 613 preceitos. Destes, 365 ― à imagem dos dias do ano ― eram negativos, e 248 ― à seme­lhança numérica dos ossos do corpo humano ― eram positi­vos. Dos primeiros, alguns eram tão graves que só podiam ser reparados com a pena capital, e os outros, por uma penitência proporcionada. A miríade de outras obrigações menores pro­porcionava-lhes discussões intermináveis em suas escolas. Por esses motivos, não era fácil formular com toda segurança uma resposta categórica e clara a tais questões, sobretudo se fosse para não colidir com opiniões subjetivas destes ou daqueles ra­binos.

Sabedoria de Cristo e insuficiência dos que O invejavam

37 Jesus respondeu: “‘Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento!’ 38 Esse é o maior e o primeiro Mandamento”.

A pergunta que foi dirigida a Jesus sai de lábios talvez tra­balhados pela sabedoria humana, para ouvidos plenos da Sa­bedoria divina. O doutor da Lei não pergunta para conhecer a verdade, e sim para tentar a Deus. O Evangelho é pervadi­do dessa polêmica entre a Sabedoria de Cristo e a pobre insufi­ciência dos que O invejavam. Num determinado momento, será um problema judaico de teor religioso-moral, o da adúltera apanhada em flagrante (cf. Jo 8, 3-11); em outra ocasião virão os saduceus com o episódio dos sete irmãos que se casaram su­cessivamente com a viúva do primeiro deles (cf. Mt 22, 23-32); ou então o famoso dilema do pagamento do tributo (cf. Mt 22, 15-22); e assim por diante.

Está diante deles, porém, um Homem-Deus que penetra o mais fundo dos corações, como o pôde comprovar Natanael que chegou a concluir: “Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel” (Jo 1, 49). Na mesma linha, a samaritana, tomada de surpresa pelo conhecimento minucioso de sua vida, revelado por Jesus, não hesitou em considerá-Lo um grande profeta (cf. Jo 4, 19). Ou então, Cristo deixa transparecer como sabia qual era o pen­samento dos Apóstolos, quando ardia em seus corações o desejo de serem os maiores no Reino d’Ele (cf. Lc 9, 46-48). E ainda muito mais.

No preceito da caridade estão concernidas as demais virtudes

Por isso, a resposta de Jesus é simples e ao mesmo tempo grandiosa: o amor a Deus! São Tomás de Aquino11 nos ensina que o fim da vida espiritual é a união com Deus, a qual se torna efetiva pela caridade, ou seja, pelo amor a Ele. Logo, toda vida espiritual deve estar submetida a este último fim. Daí afirmar o Apóstolo: “Esta recomendação só visa estabelecer a caridade, nascida de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera” (I Tim 1, 5).

Em vista disso, todas as virtudes se conjugam para puri­ficar a caridade dos males e das desordens oriundas das más inclinações. Ademais, ela auxilia cada um a proceder com boa consciência e, desta forma, agir com fé reta e sincera, no rela­cionamento com Deus. Por conseguinte, no preceito da caridade encontram-se concernidas as demais virtudes.12

“Amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças”

Sobre esta passagem, comenta Maldonado, “Mar­cos diz primeiro: ‘Ouve, Is­rael, o Senhor teu Deus é um Deus único’ (Mc 12, 29). […] Os dois Mandamentos es­tão na mesma passagem, em Moisés. O primeiro é que creiamos num só Deus; o segundo, que O amemos de todo o coração, pois é claro que quem cresse em muitos dividiria o amor e não amaria nenhum com todo o seu coração, por­que ninguém pode amar a dois senho­res (cf. Mt 6, 24).

“‘De todo o teu coração e com toda a tua alma’. Alguns intérpretes fazem aqui distinções por demais sutis, a meu juízo. Parece-me que isso significa que ame­mos a Deus o quanto possamos e empreguemos em seu servi­ço o que possuímos. Assim o ensina Santo Agostinho: ‘Ao dizer com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente, não deixa parte alguma do homem livre e desocupada para amar ou­tra coisa segundo o seu capricho; mas qualquer objeto que se nos apresente digno de amor deve ser arrastado pela corrente de nosso único afeto’.

“Finalmente, o que em diversas passagens ou com diferentes palavras se diz no Deuteronômio (6, 5), aqui está re­sumido numa só, consignada por Lucas: ‘Amarás o Senhor teu Deus com todas as tuas forças’ (Lc 10, 27)”.13

Alma e espírito

Pareceria, à primeira vista, haver uma certa redundância di­dática na repetição — “de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu espírito” — con­tida neste versículo, segundo a tradução do texto grego. Não obstante, explicam-nos certos autores a diferença existente entre alma e espírito e, com isso podemos compreender a razão mais profunda da afir­mação de Nosso Senhor.

“Melhor se deve en­tender por ‘alma’ a parte inferior da alma, a que olha a vida natural. E por ‘espírito’ a parte superior, a que considera as coisas espirituais e divinas. A al­ma indica, pois, a nature­za da alma. O espírito, a mente imbuída da graça e o impulso comunicado à mente pelo Espírito Santo. Portanto, a alma é na­tural e considera as coisas naturais. O espírito, as coisas sobre­naturais e celestes. Assim, pois, o espírito significa: em primeiro lugar, a mente; em segundo lugar, o veemente impulso da men­te e o fervor do gozo e do júbilo; em terceiro lugar, o fato de que esse impulso da mente é comunicado e infundido pelo próprio Espírito Santo”.14

Deste modo, a “alma”, subjetivamente falando — em si mesma —, é una e simples. O que varia é o objeto sobre o qual ela atuará. Ora, o Divino Mestre nos recomenda que até na própria vida natural tudo façamos em função de Deus que nos criou.

Quanto ao “espírito”, seguindo a linguagem da Escritu­ra, é movimento do ânimo, impulso, etc. É nesse sentido que poderá haver um bom ou um mau espírito: “Não sabeis de que espírito sois animados” (Lc 9, 55), disse Jesus aos Apóstolos ir­mãos, João e Tiago, que desejavam, por pura vingança, mandar descer fogo do Céu para consumir as cidades que lhes negavam hospedagem. Neles não havia um espírito sobrenatural, mas pu­ramente humano, de cólera má e vingança, contrário ao espírito d’Aquele que viera para salvar e não para perder.

O homem há de viver somente para amar a Deus

A expressão “de todo o teu coração” encontra belíssima explicação em São Gregório Magno: “O que a morte faz nos sentidos do corpo, o amor faz nas concupiscências da alma. Al­guns amam de tal maneira a Deus, que desprezam tudo quanto é sensível; e enquanto em sua intenção miram o eterno, fazem­-se insensíveis para tudo quanto é temporal. Pois nestes o amor é forte como a morte; porque assim como a morte mata todos os sentidos exteriores do corpo e o priva de sua própria e na­tural apetência, assim também o amor em tais pessoas as força a menosprezar todo desejo terreno, tendo a alma ocupada em outra coisa à qual atende. A estes, mortos e vivos, dizia o Após­tolo: ‘Estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus’ (Col 3, 3)”.15

Os dois principais Mandamentos

“Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças” (Dt 6, 4-5). Esta era a determi­nação de Deus, transmitida ao povo eleito pela voz e pluma de Moisés. Os doutores da Lei bem a conheciam, ou seja, era uma obrigação religiosa que esse amor a Deus penetrasse toda ativi­dade consciente daquele povo e fosse tomado como “o maior e o primeiro Mandamento”, por sua alta dignidade e por pervadir toda a atividade do homem, sobretudo no cumprimento de seus deveres e obrigações para com Deus.

39 “O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”.

Ou seja, devemos ter por nosso próximo a mesma bene­volência, estima e amor que esperamos os outros tenham por nós, e um respeito proporcional ao desígnio de Deus para com cada um. Falar ao próximo, ou sobre ele, como desejamos que o façam conosco; esconder e escusar suas faltas; sofrer suas im­perfeições, debilidades e defeitos; louvar tudo quanto nele deve ser elogiado; defender seus interesses e servi-lo com afeto, exa­tamente como ansiamos que procedam conosco, e sempre por amor a Deus: eis a verdadeira prática da inocência e da santida­de. E é por isso que diz Nosso Senhor:

40 “Toda a Lei e os profetas dependem desses dois Mandamentos”.

A Revelação — entre outros objetivos — tem em vista co­locar à disposição dos homens um claro compêndio de doutrina e comportamento de ordem moral, através da Lei e da sabedo­ria manifestada por Deus aos seus profetas. De fato, o funda­mento e a substância de todo esse tesouro estão contidos nesses dois preceitos, tal qual demonstraria mais tarde São Paulo, afir­mando que a finalidade da Lei é o amor e é este “o pleno cum­primento da Lei” (Rm 13, 10).

III – Maria, insuperável exemplo de amor

Maria Santíssima é para toda a humanida­de — e até mesmo para os próprios Anjos — um insuperável exemplo de per­feição deste amor a Deus e ao próximo que nos é recomen­dado por seu Divino Filho, no Evangelho de hoje. Toda a sua existência foi penetrada de puríssimo e chamejante amor. Ela, mais do que qualquer outra criatura, viveu sempre de costas para o mundo e pa­ra tudo o que não era ligado a Deus. Sua vida a cada ins­tante esteve escondida em Deus, e, portanto, mui­tíssimo mais que o Apóstolo, po­deria Ela ter dito, desde o primeiro instante de sua concepção: “Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20).

Que Nossa Senhora do Divino Amor obtenha a plenitu­de da prática desses dois preceitos para todos aqueles e aquelas que contemplarem o Evangelho deste 30º Domingo do Tempo Comum. ²

 

 

1) Cf. SANTO AGOSTINHO. Confessionum. L.XIII, c.9, n.10. In: Obras. 7.ed. Ma­drid: BAC, 1979, v.II, p.561.

2) SANTO AGOSTINHO. In Epistolam Ioannis ad Parthos tractatus decem. Tracta­tus X, n.1. In: Obras. Madrid: BAC, 1959, v.XVIII, p.346-347.

3) Idem, n.2, p.348.

4) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Ioannem. C.XV, lect.5.

5) MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, v.I, p.778.

6) GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Pasión y Muerte. Resurrección y vida gloriosa de Jesús. Barcelona: Rafael Casulleras, 1930, v.IV, p.63.

7) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.90, a.4.

8) Idem, q.91, a.4.

9) Idem, ibidem.

10) Idem, q.90, prooem.

11) Cf. Idem, q.2, a.8; q.3, a.1; II-II, q.23, a.4; a.6.

12) Cf. Idem, q.44, a.1.

13) MALDONADO, op. cit., p.778-779.

14) CORNÉLIO A LÁPIDE. Commentaria in Lucam. C.I, n.47. In: Commentarii in Sacram Scripturam. Leiden: Pelagaud et Lesne, 1839, t.VIII, p.651.

15) SÃO GREGÓRIO MAGNO. Super Cantica Canticorum expositio. C.VIII, v.6, n.7: ML 79, 456.