Liturgia

14 de Julho

XV Domingo do Tempo Comum – Ano B

MISSA

ANTÍFONA DE ENTRADA cf. Salmo 16, 15

Eu venho, Senhor, à vossa presença:
ficarei saciado ao contemplar a vossa glória.

ORAÇÃO COLECTA
Senhor nosso Deus,
que mostrais aos errantes a luz da vossa verdade
para poderem voltar ao bom caminho,
concedei a quantos se declaram cristãos
que, rejeitando tudo o que é indigno deste nome,
sigam fielmente as exigências da sua fé.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Amós 7, 12-15
«Vai, profeta, ao meu povo»

Leitura da Profecia de Amós
Naqueles dias, Amasias, sacerdote de Betel, disse a Amós: «Vai-te daqui, vidente. Foge para a terra de Judá. Aí ganharás o pão com as tuas profecias. Mas não continues a profetizar aqui em Betel, que é o santuário real, o templo do reino». Amós respondeu a Amasias: «Eu não era profeta, nem filho de profeta. Era pastor de gado e cultivava sicómoros. Foi o Senhor que me tirou da guarda do rebanho e me disse: ‘Vai profetizar ao meu povo de Israel’».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 84 (85), 9ab-10.11-12.13-14 (R. 8)
Refrão: Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor
e dai-nos a vossa salvação. Repete-se
Ou: Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia. Repete-se

Deus fala de paz ao seu povo e aos seus fiéis
e a quantos de coração a Ele se convertem.
A sua salvação está perto dos que O temem
e a sua glória habitará na nossa terra. Refrão

Encontraram-se a misericórdia e a fidelidade,
abraçaram-se a paz e a justiça.
A fidelidade vai germinar da terra
e a justiça descerá do Céu. Refrão

O Senhor dará ainda o que é bom,
e a nossa terra produzirá os seus frutos.
A justiça caminhará à sua frente
e a paz seguirá os seus passos. Refrão

LEITURA II – Forma longa Ef 1, 3-14
«Ele nos escolheu, em Cristo, antes da criação do mundo»

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Efésios
Bendito seja Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que do alto dos Céus nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo. N’Ele nos escolheu, antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, em caridade, na sua presença. Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo, para louvor da sua glória e da graça que derramou sobre nós, por seu amado Filho. N’Ele, pelo seu sangue, temos a redenção e a remissão dos pecados. Segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência, deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade, o desígnio de benevolência n’Ele de antemão estabelecido, para se realizar na plenitude dos tempos: instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra. Em Cristo fomos constituídos herdeiros, por termos sido predestinados, segundo os desígnios d’Aquele que tudo realiza conforme a decisão da sua vontade, para sermos um hino de louvor da sua glória, nós que desde o começo esperámos em Cristo. Foi n’Ele que vós também, depois de ouvirdes a palavra da verdade, o Evangelho da vossa salvação, abraçastes a fé e fostes marcados pelo Espírito Santo. E o Espírito Santo prometido é o penhor da nossa herança, para a redenção do povo que Deus adquiriu para louvor da sua glória.
Palavra do Senhor.

ALELUIA cf. Ef 1, 17-18
Refrão: Aleluia. Repete-se
Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo,
ilumine os olhos do nosso coração,
para sabermos a que esperança fomos chamados. Refrão

EVANGELHO Mc 6, 7-13
«Começou a enviá-los»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo, Jesus chamou os doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois. Deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão: nem pão, nem alforge, nem dinheiro; que fossem calçados com sandálias, e não levassem duas túnicas. Disse-lhes também: «Quando entrardes em alguma casa, ficai nela até partirdes dali. E se não fordes recebidos em alguma localidade, se os habitantes não vos ouvirem, ao sair de lá, sacudi o pó dos vossos pés como testemunho contra eles». Os Apóstolos partiram e pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo muitos doentes e curaram-nos.
Palavra da salvação.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Olhai, Senhor, para os dons da vossa Igreja em oração
e concedei aos fiéis que os vão receber
a graça de crescerem na santidade.
Por Nosso Senhor.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãs e irmãos: Supliquemos a Deus Pai que nos mostre a sua misericórdia e dê a salvação à santa Igreja, dizendo (ou: cantando), de coração sincero:

R. Escutai, Senhor, a oração do vosso povo.

Ou: Mostrai-nos, Senhor, o vosso amor.

Ou: Deus omnipotente, vinde em nosso auxílio.

1. Pelo Papa N., e por todos os bispos, presbíteros e diáconos, para que celebrem os mistérios de Jesus Cristo com alegria e fervor sempre renovados, oremos.

2. Pelos apóstolos que Jesus continua a enviar, para que, sem alforge nem dinheiro, anunciem o arrependimento e a paz, oremos.

3. Pelos que têm fome e pelos doentes, pelos rejeitados e por todos os que sofrem, para que encontrem alívio junto de Deus e dos homens, oremos.

4. Por todos aqueles que Deus abençoou e escolheu, e pelos que chamou à fé e marcou pelo Espírito, para que sejam santos e irrepreensíveis na sua presença, oremos.

5. Por todos nós aqui reunidos em assembleia, para que Deus nos conceda o perdão dos pecados e a vontade de cumprir os mandamentos, oremos.

Senhor, nosso Deus e nosso Pai, que nos destes a conhecer a vossa vontade de renovar todas as coisas em Cristo, iluminai os olhos do nosso coração, para sabermos a que esperança fomos chamados. Por Cristo Senhor nosso.
ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 83, 4-5
As aves do céu encontram abrigo
e as andorinhas um ninho para os seus filhos,
junto dos vossos altares, Senhor dos Exércitos,
meu Rei e meu Deus.
Felizes os que moram em vossa casa
e a toda a hora cantam os vossos louvores.

Ou Jo 6, 57
Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue
permanece em Mim e Eu nele, diz o Senhor.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor, que nos alimentais à vossa mesa santa,
humildemente Vos suplicamos:
sempre que celebramos estes mistérios,
aumentai em nós os frutos da salvação.
Por Nosso Senhor.

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Os Doze são enviados em missão

Jesus conferiu aos Apóstolos o poder de expulsar os espíritos imundos e o dom de curar os enfermos, para que os homens daquela época dessem crédito à mensagem do Evangelho. E em nossos dias, qual é a prova da autenticidade da Boa-nova que os evangelizadores devem apresentar ao mundo moderno?

I – A cruz, companheira inseparável do apóstolo

Antes de enviar os Apóstolos em missão, a pregar o Evangelho, Jesus dá-lhes preciosos conselhos que, embora possam parecer a alguns um tanto árduos de serem postos em prática, continuam inteiramente válidos, pois suas palavras permanecem para sempre.

Falava Ele para homens de seu tempo, fazendo uso dos re­cursos de linguagem habituais à cultura dos orientais, na qual abundavam as imagens, os enigmas, as parábolas. Mas estas, desde que interpretadas de maneira adequada, revelam valiosas normas de apostolado, utilíssimas para quem segue hoje os pas­sos do Mestre na meritória e difícil tarefa de evangelizar.

Antes, porém, de entrar na consideração do Evangelho do 15º Domingo do Tempo Comum, detenhamo-nos um pouco no episódio imediatamente anterior — a visita a Nazaré —, para melhor penetrarmos no sentido dos ensinamentos de Nosso Se­nhor aos Doze, com vistas à missão que lhes daria.

Seus compatrícios O rejeitaram

Poder-se-ia afirmar, em termos coloquiais, que a prega­ção de Jesus em Nazaré redundou num verdadeiro fracasso: é provável que ali Ele não tenha conseguido converter ninguém e quase não tenha feito milagres.

São Marcos reproduz os comentários feitos pelos conhe­cidos do “carpinteiro”, nos quais transparece o deplorável vício da inveja, decorrente da comparação das qualidades pessoais, sobrevalorizadas por uma análise complacente, com os talen­tos dos outros. E, neste caso, a comparação era com o próprio Jesus: “Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também suas irmãs?” (Mc 6, 3). Em outras palavras, “não é este aquele Homem que eu conheço há muito tempo, que vale tanto como eu, e agora Se apresenta como Profeta, fazendo milagres? Como tem Ele estes dons e eu não?”.

Com frequência, o convívio muito próximo e assíduo pro­voca um curioso fenômeno de cegueira espiritual em relação às qualidades e virtudes do próximo. Os habitantes de Nazaré não conseguiam ver em Jesus nada mais além do que o “carpinteiro”, “irmão de Tiago”. Ficaram incapazes de ver n’Ele o Fi­lho de Deus. E, no entanto, Ele era o Messias prometido!

É de se notar que, antes de ir para Nazaré, Jesus tinha ope­rado um milagre que deixara as­sombrados todos os circunstan­tes: ressuscitara a filha de Jairo, recém-falecida. “Ele partiu dali e foi para a sua pátria” (Mc 6, 1). Para fazer um morto retornar à vida, somente Deus tem poder. Era natural que uma notícia deste porte corresse à frente do Divino Mestre. Assim, ao chegar Ele a Nazaré, tão ex­traordinário fato era já do conhecimento geral.

Seria, portanto, de se esperar que seus compatrícios — sobretudo os parentes mais próximos — se alegrassem com tal acontecimento, pois Deus escolhera um do meio deles para tão alta missão. Não! Pelo contrário, fecharam o coração, rejeita­ram Jesus, tentaram até matá-Lo, conforme narra São Lucas (cf. Lc 4, 29). Mistério da iniquidade…

O Mestre forma o espírito dos Apóstolos

Nasce daí a pergunta: por que razão Cristo, que tudo co­nhecia, quis visitar Nazaré junto com os Apóstolos?

Ele já sabia que sua pregação seria em vão… Ademais, ali vivera desde seu regresso do Egito, e conhecia a fundo a dureza de coração de seus conterrâneos. Sem dúvida, ao longo desse período, deve ter-Se empenhado em abrir-lhes a alma para a grandeza dos dias que eles viveriam, quando Ele Se manifestas­se como o Messias. E sabia quanto eles estavam longe dessas perspectivas grandiosas.

O que O levou a Nazaré? Uma das razões, decerto, era a de preparar os Apóstolos para a missão de anunciar o Evange­lho.

Tinha Ele percorrido a Galileia fazendo todo tipo de mila­gres, mas, pelo modo como o Evangelista Marcos relata a passa­gem por Nazaré, o acontecido nesta cidade não marcou menos o coração dos seus discípulos, os quais não deixaram de ressaltar aquele aparente fracasso: “Não pôde fazer ali milagre algum” (Mc 6, 5).

Para formar o espírito dos Apóstolos, Jesus não deixou de mostrar-lhes como a incredulidade daquela gente era inusita­da: “Admirava-Se Ele da desconfiança deles” (Mc 6, 6a). Desta maneira, pelo choque gerado por atitude tão surpreendente dos nazarenos — a rejeição da graça e dos benefícios que lhes eram oferecidos —, procurava certamente Jesus ensinar, de forma di­vina, como todo aquele que se dedica ao apostolado não pode deixar-se levar por ilusões. Pois a tendência normal do apóstolo é difundir o bem, sobretudo entre os mais próximos. E, por ve­zes, é entre estes que encontra maior rejeição.

Atitude do apóstolo perante a rejeição

O que, então, pre­cisa ser feito? A verda­de não deve ser impos­ta, mas oferecida com despretensão. Se os ou­vintes não a quiserem aceitar, o apóstolo, em vez de insistir, procu­re anunciá-la a quem tiver boas disposições. Por isso, Jesus não fez milagres em Nazaré: se procurasse impor a verdade por meio de sinais extraordinários, aumentaria a culpa da­queles que a rejeitavam. E, nisto, ainda havia um ato de misericórdia em relação a quem fechava a alma para o Bem.

O que deve fazer o apóstolo quando é rejeitado em algum lugar? O exemplo dado pelo Mestre é inequívoco: “E, ensinan­do, percorria as aldeias circunvizinhas” (Mc 6, 6b).

É admirável o modo como Ele preparava os Apóstolos pa­ra a missão que logo em seguida haveria de lhes dar. Seu divi­no método pedagógico estava baseado no seu sublime exemplo. Primeiro fez com que O acompanhassem na pregação, vissem os milagres operados, participassem até de uma investida fracassa­da em Nazaré, onde tudo parecia concorrer para que a prega­ção obtivesse bom êxito. Só depois os envia em missão a pregar a Boa-nova, quando seu espírito já estava mais preparado pela experiência e fora já um tanto abalada a ilusão de que à frente deles se abria uma larga e cômoda avenida de sucessos.

O que o apóstolo deve esperar encontrar pelo caminho não são sucessos, mas, o mais das vezes, incompreensões, obs­táculos e sofrimento. A cruz será a companheira inseparável do verdadeiro apóstolo, mesmo que lhe seja concedido o dom de fazer milagres e dominar os espíritos impuros.

II – Recomendações do Divino Mestre

Naquele tempo, 7a Jesus chamou os Doze…

Em tudo quanto fazia Nosso Senhor, encontramos prin­cípios de altíssima sabedoria, pois seus atos eram reali­zados com divina perfeição. Podemos, pois, nos pergun­tar por que terá Ele escolhido doze Apóstolos, e não um outro número qualquer, de acordo com as necessidades concretas do momento. Em seus comentários ao Evangelho de São Mateus, São Tomás de Aquino dá uma razão: “Por que doze? Para mos­trar a conformidade entre o Antigo e o Novo Testamento: as­sim como no Antigo houve doze patriarcas, no Novo são doze”1 Apóstolos.

Em seguida, muito ao gosto dos medievais, o Doutor An­gélico discorre sobre a simbologia dos números e apresenta outro motivo: “Era também para indicar a perfeição, porque o número doze resulta de duas vezes seis. Com efeito, seis é um número perfeito, já que se compõe de todas as suas par­tes: ele vem de um, de dois ou de três, e estas partes, somadas umas às outras, dão seis. Assim, o Senhor escolheu doze para indicar a perfeição. ‘Sede perfeitos como vosso Pai é perfei­to’(Mt 5, 48)”.2

7b …e começou a enviá-los dois a dois…

O fato de enviar os Apóstolos dois a dois obedece a um princípio de prudência. Dada a natureza sociável do homem, a companhia de um irmão serve-lhe de valioso apoio psicológico, tanto nas dificuldades concretas da vida como nas provações es­pirituais, tornando mais suportável o peso a carregar.

Com solicitude divina, Nosso Senhor já lhes ensinava uma norma de conduta que favorecia a prática da virtude da perse­verança e seria seguida por tantos religiosos, no decorrer dos séculos. Esta norma favorece também as virtudes da vigilância e da humildade, pois quem aceita a companhia de um irmão e sujeita-se a ser vigiado por ele, reconhece, de forma implícita, a sua debilidade. A este, terá o demônio mais dificuldades para vencer com suas insídias; e o mundo, menos poder para envolvê­-lo com suas seduções.

Quantas pessoas, lançando-se com empenho nas lides do apostolado, prevaricaram ao longo do caminho por confiarem nas suas próprias forças e se aventurarem sozinhas! Acabaram por ser tristemente seduzidas pelas ilusões do mundo… A companhia de um irmão é sempre um anteparo para um sem-número de tenta­ções e de seduções, as quais, hoje mais do que nunca, podem se apresentar até nos recintos mais sagrados, como também na tran­quilidade da residência pessoal, durante uma “navegação” impru­dente pelos vastos e perigosos espaços virtuais da internet…

Há dois mil anos, não havia os riscos morais de nossa épo­ca. Apesar disso, Nosso Senhor enviou seus Apóstolos dois a dois, para se entreajudarem e sustentarem mutuamente na fé, quando surgissem dificuldades: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos” (Mt 10, 16).

Também o padre Manuel de Tuya assinala que o fato de partirem os Apóstolos em duplas lhes possibilitava “ajudarem­-se e vigiarem-se” uns aos outros, e acrescenta que, além disso, conferia autenticidade às suas palavras, pois, afirma, “ninguém podia suspeitar daquele que tinha uma testemunha”.3

O abade Duquesne aduz outras razões, não menos impor­tantes: “Seguramente queria Jesus indicar, com isso, também a união que deve reinar entre seus ministros e seus verdadeiros discípulos”.4 E conclui o comentário com um sábio conselho: “É máxima de prudência procurar, sempre que possível, este au­xílio que Jesus Cristo estabeleceu, santificou e ofereceu a seus Apóstolos”.5

Também a sabedoria nos fala no mesmo sentido: “Dois ho­mens juntos são mais felizes que um isolado, porque obterão um bom salário do seu trabalho. Se um vem a cair, o outro o levanta. Mas ai do homem solitário: se ele cair, não há ninguém para le­vantá-lo” (Ecl 4, 9-10).

7c …dando-lhes poder sobre os espíritos impuros.

Era esta outra prova irrefutável da divindade de Nosso Se­nhor. Sendo o poder dos Anjos muito superior ao dos homens, ninguém pode vencer um espírito impuro a não ser com o auxí­lio de Deus. Cristo tem não só este poder, como também a capa­cidade de transmiti-lo aos Apóstolos, pois Ele é Deus. E a Igre­ja, até os dias de hoje, o confere aos seus ministros, designando exorcistas, com o encargo de — em caso de possessão diabólica comprovada, e seguindo normas bem estritas — expulsarem os espíritos impuros com o poder que Cristo outorgou a ela.

No tempo de Nosso Senhor, o império do mal estendia-se sobre toda a humanidade, imersa nas trevas do paganismo e da idolatria, manifestando-se frequentemente através de posses­sões, como nos relatam numerosas passagens dos Evangelhos.

Talvez em nossos dias não seja tão visível o domínio do mal sobre o mundo, como era na Antiguidade, mas sua ação, sem dúvida, é mais ampla e insidiosa, levando grande número de pessoas a acharem que não existe o demônio nem o pecado. Assim, as almas, por falta de defesa, ficam mais expostas à sua maléfica influência. E a assombrosa degradação dos costumes de nossa época, com a consequente multiplicação dos crimes, não será um sintoma desta forma sub-reptícia de dominação dos espíritos impuros em toda a Terra?

8 Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. 9 Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas.

A radicalidade destas determinações de Nosso Senhor aos Apóstolos tem suscitado entre os exegetas e mestres espirituais, no transcurso da História da Igreja, múltiplas interpretações.

Segundo alguns, entre os quais São Francisco de Assis, tais preceitos devem ser seguidos à risca, de acordo com o exemplo dos Apóstolos. Outros interpretam as palavras de Nosso Senhor num sentido figurado, fazendo as devidas adaptações às circuns­tâncias de cada época e lugar. De qualquer modo, é inequívoca a intenção de Nosso Senhor de, com estas prescrições, tornar claro que os Apósto­los, ao se dedicarem à evangelização, não deviam preocupar­-se com os recursos materiais, mas fazer uso apenas do que lhes era indispensável. Toda a sua con­fiança deveria estar posta na proteção de Deus, tanto para obter os meios de subsistên­cia como, sobretudo, para al­cançar os meios sobrenaturais, ou seja, a graça, indispensável à conversão das almas.

Algumas vezes o evangeliza­dor, demasiadamente preocupa­do com os recursos materiais para desenvolver suas atividades em favor da salvação das almas, pode acabar por depositar sua confiança nos próprios esforços e qualidades naturais, esquecendo-se de que só Deus, com a graça divina, é capaz de mover os corações. Todo o res­to, inclusive o apóstolo, não passam de meros instrumentos nas mãos do Altíssimo. Por conseguinte, depois de ter feito todos os esforços para o bom resultado da evangelização, devemos estar convictos de que somos “servos inúteis” (Lc 17, 10).

A melhor maneira de assegurar bons frutos de apostolado consiste em ter esta disposição de alma, de entrega absoluta nas mãos da Providência, confiando cegamente em seu auxílio.

Deixemos de lado a interpretação dada pelos exegetas às discrepâncias entre os evangelistas sobre o uso ou não de bas­tão, e outros detalhes de menor importância, e voltemos nossa atenção para a belíssima simbologia que alguns autores ressal­tam nas prescrições do Divino Mestre.

São Tomás de Aquino6 recolhe na Catena Áurea várias destas interpretações simbólicas, repletas de sabedoria. Santo Agostinho explica que o uso das sandálias, em vez de calçado comum, “indica que este tipo de calçado tem algum significado envolto no mistério: nele o pé não fica coberto por cima nem entra em contato com a terra, quer dizer, o Evangelho não deve permanecer oculto nem se apoiar em comodidades terrenas”.7

Quanto à recomendação de não levar duas túnicas para a viagem, a interpreta o mesmo Doutor: “E com o fato de proibir vestir — e não só levar ou ter — duas túnicas, com estas palavras ‘e não vistam duas túnicas’, a que os exorta senão a andar na simplicidade, sem a menor duplicidade?”.8

Por sua vez, São Beda interpreta da seguinte forma o sim­bolismo do pão, da sacola e do dinheiro: “No sentido alegóri­co, a sacola representa os encargos e os embaraços mundanos; o pão, as delícias da Terra; e o dinheiro na cintura, a sabedo­ria que permanece escondida. […] Com efeito, quem se revestiu das funções de evangelizador não pode dobrar-se sob o peso das ocupações terrenas, nem deixar-se amolecer pelos desejos car­nais, nem esconder, sob a negligência de um corpo entregue à ociosidade, o talento da palavra que lhe foi confiado”.9

10 E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida”.

Ao tratar sobre este episódio, o Evangelista São Mateus é mais detalhado, especificando que deve ser escolhida a casa de uma pessoa digna: “Nas cidades ou aldeias onde entrardes, informai-vos se há alguém ali digno de vos receber; ficai ali até a vossa partida” (Mt 10, 11).

É quase intuitivo o motivo pelo qual Nosso Senhor lhes faz esta recomendação. “Sem uma prudente escolha” — comenta Fillion — “poderiam pôr em risco sua reputação pessoal e pre­judicar a causa do Reino dos Céus. Não devem ir para a casa do mais rico ou do mais influente, mas sim para a que seja mais digna. Recebidos numa casa, ali permanecerão até a partida. Mudar-se para outra seria sinal de superficialidade ou de pouca mortificação, que desdourariam a dignidade apostólica”.10

11 “Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles!”

Uma vez mais, à semelhança do exemplo por Ele dado em Nazaré, Nosso Senhor adverte que não se deve insistir com aqueles que não querem acreditar na Boa-nova. O tempo é uma criatura de Deus, de cujo uso Lhe deveremos prestar contas. Desperdiçá-lo, insistindo em evangelizar quem não quer sal­var-se, implica em deixar de pregar àqueles que aproveitariam melhor a mensagem da salvação. Não terão estes razões para re­criminar, no dia do Juízo, quem os privou de tão precioso bem?

A linguagem dos símbolos fala muito mais aos homens do Oriente do que a nós, ocidentais, que herdamos uma mentalida­de dada ao utilitarismo. Rasgar as vestes em sinal de indignação, cobrir a cabeça de cinzas para significar a penitência ou grande tristeza eram atitudes, entre outras, que os orientais sentiam ne­cessidade de tomar para expressar seus sentimentos mais vivos. Bem como, ao ser alvo de grande rejeição, o gesto de bater as sandálias para sacudir o pó expressa o rompimento total, a von­tade de não levar consigo nem sequer a poeira da terra cujos habitantes não quiseram aceitar a Boa-nova.

Pirot e Clamer descrevem a origem de tal costume: “Pro­cediam assim os judeus quando saíam do solo pagão e entra­vam na Terra Santa. Para deixar claro que não queriam guardar nenhum contato impuro, eles sacudiam até a poeira de suas sandálias, gesto simbólico que assinalava quão completa era a ruptura entre o judeu e o pagão. Da parte dos Apóstolos, este gesto simbólico destinava-se a mostrar aos judeus rebeldes à voz da graça, que eles se tornaram indignos da mensagem que lhes era oferecida, a tal ponto que mereciam ser considerados e tratados como pagãos. Assim agiram Paulo e Barnabé em An­tioquia da Pisídia, quando uma revolta provocada pelos judeus os forçou a deixar esta cidade e ir para Icônio (cf. At 13, 51)”.11

III – Efeitos da pregação

12 Então os Doze partiram e pregaram que todos se convertessem.

Esta pregação dos Apóstolos tem aqui o sentido de con­versão do coração, ou seja, penitência interior, mais do que atos externos de mortificação — por exemplo, je­juar, vestir-se de saco ou cobrir-se de cinza —, como os que fa­ziam tantas vezes os fariseus, para serem vistos e louvados pelos homens.

“A penitência interior é uma reorientação radical de to­da a vida, um retorno, uma conversão a Deus de todo o nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e re­pugnância às más obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida, com a esperança da misericórdia divina e a confiança na ajuda da sua graça”,12 con­forme ensina a Igreja.

13 Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo.

Além do poder de expulsar os demônios, Nosso Senhor deu aos Apóstolos o dom de fazer milagres. Nesta primeira mis­são, eles operavam as curas ungindo os doentes com óleo, en­quanto o Divino Mestre o fazia simplesmente com a força de sua palavra. O Concílio de Trento viu insinuado nesta unção o Sacramento da Unção dos Enfermos. Alguns teólogos veem-na como as “origens reais” desse Sacramento, ao passo que outros a consideram apenas um “tipo ou figura”.13

É esta uma boa ocasião para recordar alguns dos efeitos do Sacramento que a Igreja reserva para quem se encontra em perigo de morte, causado por doença ou por envelhecimento. Não é necessário, para receber a Unção dos Enfermos, que a morte seja iminente; basta que a doença seja grave e possa vir a causar o falecimento, ainda havendo esperança de cura.

“O principal dom deste Sacramento” — ensina o Catecis­mo da Igreja Católica — “é uma graça de reconforto, de paz e de coragem para vencer as dificuldades próprias do estado de enfermidade grave ou da fragilidade da velhice. Esta graça é um dom do Espírito Santo, que renova a confiança e a fé em Deus e fortalece contra as tentações do maligno, tentação de desânimo e de angústia da morte. Esta assistência do Senhor pela força do seu Espírito quer levar o enfermo à cura da alma, mas também à do corpo, se for esta a vontade de Deus. Além disso, ‘se ele cometeu pecados, lhe serão perdoados’ (Tg 5, 15)”.14

Por este motivo, não é raro que enfermos graves se vejam curados após receber a Unção dos Enfermos, ou tenham a vida prolongada mais do que as expectativas normais da medicina. Não percamos, pois, qualquer oportunidade de proporcionar esta graça inestimável aos que reúnem as condições requeridas para receber validamente este Sacramento. Entre seus efeitos admiráveis — defendem grandes doutores e teólogos, como São Tomás de Aquino, São Boaventura, Santo Alberto Magno, Santo Afonso de Ligório, entre outros — está o de preparar a alma para entrar diretamente na glória, dependendo das dis­posições interiores com as quais ela o recebe. Não seriam estes efeitos razão suficiente para pedirmos a Unção dos Enfermos com verdadeira sofreguidão, sempre que uma doença grave nos visitar?

IV – Deus dá, para cada época, os remédios mais adequados

O mundo moderno não necessita menos de ser evange­lizado que o antigo. Entretanto, por vezes, talvez nos sintamos em desvantagem em relação à época passada, vendo o progresso avassalador do mal e a falta de operários para anunciarem a Boa-nova. Onde estão os novos apóstolos capazes de fazer milagres, como os de outrora, de expulsar os espíritos impuros e de pregar a penitência como eles?

Deus sempre dá para os males de cada época os remédios mais adequados. Quando Jesus convocou os Doze, era mais con­veniente, para o bem das almas, que eles realizassem prodígios portentosos a fim de provar a veracidade da doutrina admirável que anunciavam.

E hoje? Que milagres precisa operar quem se dedica ao apostolado, para mover as almas à conversão? Em nossa épo­ca tão secularizada, talvez os milagres não produzam o efeito que tiveram nos tempos apostólicos. Por isso, o “milagre” que os autênticos evangelizadores devem fazer é o de anunciar a Je­sus Cristo mediante o testemunho de uma vida santa; portan­to, praticando a virtude, aspirando à santidade e desprezando as solicitações e os ilusórios encantos do mundo. Este, sim, é o “milagre” capaz de assombrar o nosso mundo secularizado, pois a prática estável dos Dez Mandamentos não é possível só com as forças naturais da vontade humana, como nos ensina o Magis­tério Eclesiástico. É preciso que a graça santificante divinize o homem e o faça agir e viver à busca da perfeição.

É este o portentoso “milagre” que poderá abalar a incre­dulidade ou o indiferentismo de nossos coetâneos, como tantas vezes nos recordaram os últimos Papas, e já ensinava o Concílio Vaticano II, referindo-se ao apostolado laical: “Os leigos tor­nam-se valorosos arautos da Fé naquelas realidades que espera­mos (cf. Hb 11, 1), se juntarem sem hesitação, a uma vida de fé, a profissão da mesma Fé. Este modo de evangelizar, proclamando a mensagem de Cristo com o testemunho da vida e com a palavra, adquire um certo caráter específico e uma particular eficácia por se realizar nas condições ordinárias da vida no mundo”.15

Sigamos as sapienciais recomendações do Concílio Vatica­no II, sendo autênticos arautos da Boa-nova, como o foram os evangelizadores dos primeiros tempos da Igreja, sobretudo, com a “pregação” de uma vida irrepreensível e santa, segundo os preceitos admiráveis do Evangelho. Só assim uma Nova Evan­gelização conseguirá vencer a onda de secularismo que invade a sociedade hodierna.

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1) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Matthæum. C.X, lect.1.

2) Idem, ibidem.

3) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.671-672.

4) DUQUESNE. L’Évangile médité. Paris: Victor Lecoffre, 1904, v.II, p.32.

5) Idem, p.33.

6) Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Marcum, c.VI, v.6-13.

7) SANTO AGOSTINHO. De consensu evangelistarum. L.II, c.30, n.75. In: Obras. Madrid: BAC, 1992, v.XXIX, p.387-388.

8) Idem, p.388.

9) SÃO BEDA. In Marci Evangelium Expositio. L.II, c.6: ML 92, 187.

10) FILLION, Louis-Claude. Vida de Nuestro Señor Jesucristo. Vida pública. Madrid: Rialp, 2000, v.II, p.218.

11) PIROT, Louis; CLAMER, Albert (Dir.). La Sainte Bible avec un commentaire exé­gétique et théologique. Paris: Letouzey et Ané, 1950, t.IX, p.465.

12) CCE 1431.

13) PIROT; CLAMER, op. cit., p.466.

14) CCE 1520.

15) CONCÍLIO VATICANO II. Lumen gentium, n.35.

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