Liturgia

23 de Janeiro

III do TEMPO COMUM – ANO C

MISSA


AANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 95, 1.6

Cantai ao Senhor um cântico novo,
cantai ao Senhor, terra inteira.
Glória e poder na sua presença,
esplendor e majestade no seu templo.

ORAÇÃO COLECTA
Deus todo-poderoso e eterno,
dirigi a nossa vida segundo a vossa vontade,
para que mereçamos produzir abundantes frutos de boas obras,
em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Ne 8, 2-4a.5-6.8-10
«Liam o Livro da Lei e explicavam o seu sentido»

Leitura do Livro de Neemias
Naqueles dias, o sacerdote Esdras trouxe o Livro da Lei perante a assembleia de homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Era o primeiro dia do sétimo mês. Desde a aurora até ao meio dia, fez a leitura do Livro, no largo situado diante da Porta das Águas, diante dos homens e mulheres e todos os que eram capazes de compreender. Todo o povo ouvia atentamente a leitura do Livro da Lei. O escriba Esdras estava de pé num estrado de madeira feito de propósito. Estando assim em plano superior a todo o povo, Esdras abriu o Livro à vista de todos; e quando o abriu, todos se levantaram. Então Esdras bendisse o Senhor, o grande Deus, e todo o povo respondeu, erguendo as mãos: «Amen! Amen!». E prostrando-se de rosto por terra, adoraram o Senhor. Os levitas liam, clara e distintamente, o Livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de maneira que se pudesse compreender a leitura. Então o governador Neemias, o sacerdote e escriba Esdras, bem como os levitas, que ensinavam o povo, disseram a todo o povo: «Hoje é um dia consagrado ao Senhor vosso Deus. Não vos entristeçais nem choreis». – Porque todo o povo chorava, ao escutar as palavras da Lei –. Depois Neemias acrescentou: «Ide para vossas casas, comei uma boa refeição, tomai bebidas doces e reparti com aqueles que não têm nada preparado. Hoje é um dia consagrado a nosso Senhor; portanto, não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa fortaleza».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 18 B (19), 8.9.10.15 (R. Jo 6, 63c)
Refrão: As vossas palavras, Senhor, são espírito e vida. Repete-se
A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma;
as ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples. Refrão

Os preceitos do Senhor são rectos
e alegram o coração;
os mandamentos do Senhor são claros
e iluminam os olhos. Refrão

O temor do Senhor é puro
e permanece eternamente;
os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos. Refrão

Aceitai as palavras da minha boca
e os pensamentos do meu coração
estejam na vossa presença:
Vós, Senhor, sois o meu amparo e redentor. Refrão

LEITURA II – Forma longa 1 Cor 12, 12-30
«Vós sois corpo de Cristo
e seus membros, cada um na sua parte»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos. Se o pé dissesse: «Uma vez que não sou mão, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. E se a orelha dissesse: «Uma vez que não sou olho, não pertenço ao corpo», nem por isso deixaria de fazer parte do corpo. Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria o ouvido? Se todo ele fosse ouvido, onde estaria o olfacto? Mas Deus dispôs no corpo cada um dos membros, segundo a sua vontade. Se todo ele fosse um só membro, que seria do corpo? Há, portanto, muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: «Não preciso de ti»; nem a cabeça dizer aos pés: «Não preciso de vós». Pelo contrário, os membros do corpo que parecem mais fracos são os mais necessários; os que nos parecem menos honrosos cuidamo-los com maior consideração; e os nossos membros menos decorosos são tratados com maior decência: os que são mais decorosos não precisam de tais cuidados. Deus organizou o corpo, dispensando maior consideração ao que dela precisa, para que não haja divisão no corpo e os membros tenham a mesma solicitude uns com os outros. Deste modo, se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro é honrado, todos os membros se alegram com ele. Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte. Assim, Deus estabeleceu na Igreja em primeiro lugar apóstolos, em segundo profetas, em terceiro doutores. Vêm a seguir os dons dos milagres, das curas, da assistência, de governar, de falar diversas línguas. Serão todos apóstolos? Todos profetas? Todos doutores? Todos farão milagres? Todos terão o poder de curar? Todos falarão línguas? Terão todos o dom de as interpretar?
Palavra do Senhor.

LEITURA II – Forma breve 1 Cor 12, 12-14.27
Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios

Irmãos: Assim como o corpo é um só e tem muitos membros e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo. Na verdade, todos nós – judeus e gregos, escravos e homens livres – fomos baptizados num só Espírito para constituirmos um só corpo e a todos nos foi dado a beber um só Espírito. De facto, o corpo não é constituído por um só membro, mas por muitos. Vós sois corpo de Cristo e seus membros, cada um por sua parte.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Lc 4, 18
Refrão: Aleluia. Repete-se
O Senhor enviou-me
a anunciar a boa nova aos pobres,
a proclamar aos cativos a redenção. Refrão

EVANGELHO Lc 1, 1-4; 4, 14-21
«Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado. Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos. Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura. Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Ele me enviou a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos e a proclamar o ano da graça do Senhor». Depois enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãos e irmãs:
Oremos a Deus Pai todo-poderoso,
para que a Palavra revelada e o trabalho de cada dia
se tornem, para todos os homens, fonte de salvação,
e peçamos (ou: e cantemos), confiadamente:
R. Ouvi-nos, Senhor.
Ou: Senhor, nós temos confiança em Vós.
Ou: Senhor, vinde em nosso auxílio.

1. Pela Igreja católica e por todas as comunidades separadas,
para que tenham verdadeiro desejo da unidade
e respeitem as riquezas espirituais umas das outras,
oremos.

2. Pela nossa Pátria e por todas as nações,
para que progridam na paz e na justiça,
em liberdade, respeito mútuo e concórdia,
oremos.

3. Por aqueles que anunciam o Evangelho,
para que o Espírito os ensine a falar como Jesus,
ao explicar a Palavra na sinagoga de Nazaré,
oremos.

4. Por todos os que sofrem e desanimam,
para que Deus venha em sua ajuda
e os confirme na esperança e na alegria,
oremos.

5. Por todos nós aqui reunidos no Senhor,
para que hoje se cumpra também em nós
a passagem da Escritura que escutámos,
oremos.

Concedei, Senhor, à vossa Igreja
a graça de saber anunciar, com fidelidade,
a Boa Nova que o vosso Filho Jesus Cristo
proclamou na sinagoga de Nazaré.
Ele que vive e reina por todos os séculos dos séculos.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Aceitai benignamente,
e santificai Senhor, os nossos dons,
a fim de que se tornem para nós fonte de salvação.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

ANTÍFONA DA COMUNHÃO Salmo 33, 6
Voltai-vos para o Senhor e sereis iluminados,
o vosso rosto não será confundido.

Ou Jo 8, 12
Eu sou a luz do mundo, diz o Senhor.
Quem Me segue não anda nas trevas,
mas terá a luz da vida.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Deus omnipotente,
nós Vos pedimos
que, tendo sido vivificados pela vossa graça,
nos alegremos sempre nestes dons sagrados.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Jesus prega em Nazaré

Durante sua vida pública, Nosso Senhor serviu-se da palavra como essencial instrumento de apostolado.
Hoje, vinte séculos depois, apesar dos numerosos avanços da ciência e da técnica, continua ela sendo eficiente e insubstituível meio de evangelização.

I – São Lucas, Evangelista e historiador exímio

Queiram ou não os homens, em se tratando de Deus, jamais conseguirá o silêncio encobrir os acontecimentos ou a própria verdade; sobretudo quando Ele próprio deseja a divulgação de seus atos ou intervenções na História. Tal seria que, encarnando-Se o Verbo para redimir o gênero humano, ficassem Ele e sua obra relegados ao esquecimento. Assim, apesar de Jesus não nos ter deixado uma só obra escrita, não houve homem algum que tenha sido objeto de tantos comentários, cuja biografia tenha sido tão conhecida e divulgada.

Desde o início de sua vida pública, as palavras, ações e milagres do Messias prometido e esperado convulsionaram o cenário político, social e religioso já bastante movimentado daqueles tempos. As multidões ansiavam e até pressentiam que algo novo e grandioso estava para realizar-se naqueles dias. Como sucedeu isto?

Antigo Testamento, Jesus e Igreja

Reconstituir o fio cronológico dos acontecimentos e, a partir daí, reestruturar ordenadamente as circunstâncias que cercaram a vida do Salvador, mesmo antes de seu nascimento como também depois de sua morte, tem sido uma tarefa de grande alcance e levada a cabo com êxito por numerosos autores, ao longo dos séculos. Mas, quem seria capaz de revelar as sábias e especialíssimas intervenções de Deus no curso da História, para criar o clima psicológico e preparar os espíritos com vistas à magna obra redentora? Quiçá somente no dia do Juízo possamos ter uma visão global e minuciosa desse mais belo agir da Providência.

“Lucas, o médico querido” (Col 4, 14), sob esse ponto de vista, foi o escritor sagrado mais bem-sucedido. A tal respeito, encontramos interessantes considerações na obra Co-mentarios a la Bíblia Litúrgica.

“A atitude de Lucas é diferente. Não é como Marcos e Mateus, um simples pastor que recolhe o ensinamento da Igreja e o transmite num outro contexto. Sendo pastor, Lucas é também um erudito que conhece as leis da história de seu tempo; vive ancorado na tradição cultural do helenismo e pensa que os fatos da vida de Jesus e o Cristianismo podem ser apresentados dentro das exigências próprias à cultura grega, e por isso escreve seu Evangelho e o livro dos Atos.

“Por mover-se na confluência destas duas tradições (helenista e judeu-cristã), Lucas foi capaz de formular uma visão nova e esplêndida do significado de Jesus e de sua obra. A característica fundamental dessa visão é o sentido ou ritmo da História, com seu passado (Antigo Testamento), seu centro (vida de Jesus) e seu futuro (tempo da Igreja). […]

“Lucas é o Evangelista do Espírito. O laço de união do Antigo Testamento, de Jesus e da Igreja, é o Espírito de Deus que realiza sua ação entre os homens. O Espírito agia sobre os profetas da Antiga Aliança e se mostrou de uma forma decisiva no surgimento de Jesus; no tempo de sua vida, Jesus realizou a missão escatológica do Espírito de Deus sobre a Terra e o deixou à Igreja como herança. Tal é a tríplice epifania do Espírito na História (Antigo Testamento, Jesus e Igreja)”.1

Dentre as testemunhas oculares, a própria Virgem Maria!

É fácil compreender que muitos tentassem “pôr em ordem a narração das coisas”. Porém, nem sempre atingiram esse objetivo com pleno acerto. São Lucas, com polidez, insinua isso ao afirmar: “muitos já empreenderam”, ou seja, numerosos autores não haviam conseguido lograr o necessário êxito. Por isso conclui Beda: “Cita outros muitos, não tanto pelo número, quanto pela multidão de heresias que encerram; porque, como seus autores não estavam inspirados pelo Espírito Santo, fizeram um trabalho inútil, uma vez que teceram a narração a seu gosto, sem preocupar-se com a unidade histórica”.2

Numa época muito distante da máquina fotográfica e do vídeo, nada poderia melhor comprovar a veracidade de um acontecimento do que a presença de observadores. O relato feito por estes, sobretudo quando coincidentes em seu cerne e também nos seus detalhes, indicava altíssimo grau de credibilidade. Assim, Lucas se reporta às “coisas […] como no-las referiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e vieram a ser ministros da palavra”. Como bom historiador e escritor, Lucas demonstra especial zelo em deixar claro tratarem-se de testemunhas que presenciaram os acontecimentos “desde o princípio”, e levanta a ponta de um véu que nos coloca diante de bela perspectiva: quem teria sido “testemunha ocular” da Anunciação, do Nascimento e da Infância de Jesus? Realmente, não poderia ser outra pessoa senão a própria Santíssima Virgem. De onde se conclui ter ele ouvido santas e maternais narrações feitas por Maria, com base nas quais redigiu os primeiros capítulos de seu Evangelho.

Lucas atesta sua objetividade enquanto historiador: “depois de ter investigado tudo cuidadosamente desde o princípio”, decide escrever “por ordem a sua narração”, compilando os relatos orais e escritos, frutos de sua escrupulosa investigação. Ele deseja fazer uma obra que sirva de referência a outros tantos arautos da vida de Jesus, incluindo o período da infância, levando em conta, porém, o ambiente cultural daqueles tempos. Ou seja, mesclando a cronologia histórica com algo da psicologia humana.

Dedica o livro ao “excelentíssimo Teófilo”, certamente alta personalidade de sua época, pois dessa forma conferiria maior valor a sua obra. Esse era, aliás, um costume muito em voga naqueles tempos: oferecer a pessoas de escol, os trabalhos intelectuais.

II – “Todos se admiravam das palavras que saíam de sua boca”

Jesus é Filho Unigênito de Deus, idêntico ao Pai. Enquanto Deus, podia usar da “força do Espírito” como melhor Lhe aprouvesse. Porém, enquanto homem, permitiu ser tentado após os quarenta dias de jejum e penitência no deserto para, de dentro de nossa natureza, manifestar e fazer brilhar o mistério de sua Encarnação. Por isso “voltou para a Galileia” e passou a operar os mais variados e maravilhosos milagres, não como fazem os santos, empregando uma força e um poder que não lhes pertencem, mas usando de sua própria onipotência divina. Por esta razão, “sua fama divulgou-se por to-da a região circunvizinha”. Venceu o tentador e depois passou a manifestar-Se em face de seu povo.

A palavra como meio de evangelização

Já de início, em sua vida pública, Jesus nos indica um elemento essencial da evangelização: o uso da palavra. “Ensinava nas suas sinagogas…”

Ao longo de toda a História, sempre foi de capital importância para a Religião a pregação sobre as verdades eternas. Essa necessidade tornou-se ainda mais patente ao nascer o Evangelho, estendendo-se até a atualidade, como podemos comprovar pelas palavras de Paulo VI, na Carta Encíclica Ecclesiam Suam, de 6 de agosto de 1964, quando se refere à “suma importância, que a pregação cristã conserva, e hoje desempenha de maneira especial no quadro do apostolado católico […]. Nenhuma for-ma difusora do pensamento a substitui, nem mesmo as dotadas tecnicamente de extraordinária potência, como são a imprensa e os meios audiovisivos. Apostolado e pregação, equivalem-se em certo sentido. A pregação é o primeiro apostolado. O nosso, veneráveis irmãos, é, antes de tudo, ministério da Palavra. […] Devemos voltar ao estudo, não já da eloquência humana ou da retórica vã, mas sim da arte genuína da palavra sagrada”.3

Eloquência maravilhosa, atmosfera de bênção

E qual não deveria ser a maravilhosa eloquência empregada pelo Divino Mestre em suas pregações?

Sendo a Sabedoria Eterna Encarnada, nada havia que Ele não conhecesse ou não soubesse explicar. Todos os acontecimentos e todas as minúcias das Escrituras Lhe eram inteiramente familiares, e por isso discorria sobre qualquer tema não só com aisance, mas também com arte, dignidade e perfeição.

Em consequência, “era aclamado por todos” (Lc 4, 15), “todos davam testemunho em seu favor, e admiravam-se das palavras de graça que saíam de sua boca” (Lc 4, 22). E São João, em outro episódio da vida de Jesus, reproduz estas palavras de admiração: “Nunca homem algum falou como este homem” (Jo 7, 46).

Cumprindo à risca os preceitos, Jesus frequentava as reuniões realizadas nas sinagogas, aos sábados, e aproveitava para pregar. “Um dos atos sinagogais consistia na leitura de passagens bíblicas e sua explicação. Depois de ler alguma passagem da Lei, lia-se uma dos profetas. O chefe da sinagoga designava quem deveria fazê-lo. Depois de lida, a mesma pessoa, ou outra, era convidada a comentá-la. Fazia-se a leitura de pé, e a pas-sagem dos profetas, ao menos nessa época, podia ser escolhida livremente. Fazia-se a leitura e explicação de um local elevado”.4

Jesus é convidado a fazer a leitura naquele sábado, o primeiro após seu retorno oficial à cidade de Nazaré, e em seguida recebe o livro de Isaías para comentar uma passagem. Como sabemos, os livros estavam escritos em rolos de pergaminho e guardados em um armário, segundo determinada ordem. Jesus, numa simples abertura, encontrou uma linda profecia a respeito do episódio que ocorria exatamente naquele instante.

A cena é ao mesmo tempo grandiosa e simples, comum e inédita. Reportemo-nos ao Antigo Testamento e percorramos os anseios proclamados pelos profetas, os sofrimentos dos patriarcas, as angústias e apuros dos reis e juízes. A humanidade expulsa do Paraíso, numa caminhada de milênios, buscava a verdadeira salvação. A cada passo, as promessas foram sendo renovadas, ora de modo mais claro, ora misterioso, mas a esperança dava a todos os homens de coração reto o elemento essencial para a difícil virtude da perseverança em meio a tantas lutas, cativeiros e perseguições. Quando, afinal, chegaria o tão desejado Messias? É facilmente compreensível que o ambiente psicorreligioso, e até mesmo político-social, estivesse já maduro para a revelação de algo que viesse ao encontro de séculos e séculos de oração e de anseios: o surgimento do Salvador. Quantas vezes não se perguntaria cada judeu: “Terá chegado o momento?”

Ora, a fama de Jesus havia se espalhado “por toda a região circunvizinha”, devido aos inumeráveis milagres prodigalizados por onde passava. Ele, ademais, anunciava uma doutrina nova dotada de potência, preparava para o Reino e convidava o povo à conversão. Uma nova era despontava no horizonte de todos; cheia de bênção e espiritualidade, para uns, e carregada de expectativa de progresso político-social, para outros.

Procuremos viver a cena que Lucas nos descreve. Deram-lhe o livro do Profeta Isaías. Abrindo-o, Jesus “encontrou o lugar onde estava escrito: ‘O Espírito do Senhor repousou sobre Mim; pelo que Me ungiu para anunciar a Boa-nova aos pobres; Me enviou para anunciar a redenção dos cativos, e a recuperação da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a pregar um ano de graça da parte do Senhor’”.

Não é necessária muita sensibilidade para se perceber que foi criada uma atmosfera de especial bênção, no momento em que Deus feito homem, Jesus, filho de Davi, levantou-se para ler um trecho da Escritura inspirada por Ele mesmo, havia séculos. São Lucas faz notar o ambiente de grande tensão dos ouvintes, à espera do comentário: “Os olhos de todos estavam fixos n’Ele”.

O Evangelista registra apenas uma curta frase desse comentário: “Hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura que acabais de ouvir”.

Cristo, o Novo Adão

A fim de avaliarmos a grandiosidade desse episódio, remontemos aos dias iniciais de nossos primeiros pais, no Paraíso Terrestre. Deus passeia e conversa com Adão todas as tardes em meio a uma brisa inefável. Possui o primeiro homem a ciência infusa e o dom de integridade, pelo qual nenhum sofrimento o atinge e desta vida passaria à eternidade sem conhecer a morte. Sua ida para o Céu se daria numa apoteose de glória e alegria. Sendo ele o rei da criação, nada escapa ao seu domínio ou governo, nenhum animal ou ser vivente tem forças para desobedecer-lhe.

Além disto, Adão tem em altíssimo grau as virtudes e os dons do Espírito Santo. Nele, os sentimentos, paixões ou movimentos espontâneos harmonizam-se em inteira consonância com a fé. Ele é um autêntico monumento que sintetiza a magnífica obra da criação. Quanta sabedoria, dignidade e perfeição se reúnem para conferir-lhe a majestade do patriarca e arquétipo de todo um gênero de criaturas destinadas a participarem da visão de Deus e do eterno convívio com a Santíssima Trindade!

E quão trágica é a cena na qual esse varão predileto recebe das mãos de Eva o fruto proibido e o come! Ao presenciá-la — se olhos sobrenaturais tivéssemos — discerniríamos as luzes se retirarem dele, o cetro de seu imperial domínio sobre toda a natureza vivente rolar de sua destra, um mal-estar até físico penetrar no mais íntimo de seu ser.

Em consequência deste ato, Adão foi despojado de todos os privilégios, viu-se objeto da raiva dos animais e aves de rapina, obrigado a excogitar um meio de sobre-viver, pois tornara-se um simples mortal. Com seu pecado, abriu uma era de pobreza, cativeiro, cegueira e opressão para todos os seus descendentes. As portas do Céu se fecharam para a humanidade, restando-lhe apenas dois eternos destinos: o limbo, ou o inferno. Além disso, ninguém mais teria uma noção clara de como seria um homem no auge de sua plena perfectibilidade.

Os antigos ainda guardavam na memória relatos dos esplendores da vida de nossos pais no Paraíso, das dádivas perdidas e de quanto a humanidade necessitava de uma redenção. Essa era a perspectiva na qual ainda se encontrava o povo eleito durante os quase trinta anos de existência de Jesus na cidade de Nazaré, em cuja sinagoga se levantou para ler a profecia que n’Ele próprio, leitor, se realizava.

Ele, o Novo Adão, restabelecia de forma ainda mais bela e pródiga o plano primeiro de Deus para nós. E o que dizer da pulcritude de seus méritos, virtudes e dons? É Ele o próprio Deus: haveria algo mais a acrescentar?

Diante desse feérico escachoar de graças, mistérios e esperanças atendidas, nós, se ali estivéssemos, imediatamente procuraríamos abraçar a santidade e adoraríamos o Salvador.

E os que lá se encontravam, como reagiram à sublime declaração do Divino Mestre: “Hoje cumpriu-se esta passagem da Escritura que acabais de ouvir?”.

Admiração transformada em inveja

O Evangelho deste domingo encerra-se com o comentário acima. Mas nos versículos seguintes (cf. Lc 1, 22-30) vem narrado o desfecho do episódio. Depois de um surto inicial de admiração, sobreveio a desconfiança e, em seguida, o ódio mortal: “Encheram-se de ira. Levantaram-se, lançaram-No fora da cidade, e conduziram-No até ao cume do monte sobre o qual estava edificada a cidade, para O precipitarem”.

São Lucas resume num só ato as várias intervenções de Jesus em Nazaré, por razões de síntese e até mesmo pelo empenho de manter a beleza literária de sua obra. Em realidade, houve numa primeira fase muita admiração por Jesus por parte dos ha-bitantes dessa cidade e, provavelmente, um desejo egoísta de tê-lo como subalterno das grandes figuras locais.

A natureza humana concebida no pecado original, se não é fiel à graça de Deus, assim sempre reage. Após o primeiro surto de admiração, vem a comparação; em seguida, a vontade de tirar proveito; logo se levanta a inveja, da qual nascem o ódio e a sanha de destruir.

III – Conclusão

O mundo hoje também encontra-se numa crise semelhante e, por alguns lados, até pior que a da Antiguidade na qual Jesus iniciou de maneira magistral sua vida pública. Ou Ele liberta os cativos dos horrores do pecado e restitui a vista aos cegos atolados nas paixões e nos vícios, e novamente proclama “um ano de graça da parte do Senhor”, ou teremos chegado ao fim da História.

Ora, Maria afirmou em Fátima: “Por fim o meu Imaculado Coração triunfará!” Esse triunfo se dará, e com certeza.

Rezemos para que a inveja, o ódio e a sanha destruidora do mal, por muitos séculos se sintam acanhadas para assim ser durável, quando se estabelecer nesta Terra, o Reino de Cristo por meio do Sapiencial e Imaculado Coração de Maria!

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1) PIKAZA, Xabier. Introducción al Evangelio de Lucas. In: VV.AA. Comentarios a la Biblia Litúrgica. 3.ed. Barcelona: San Pablo Comunicación, 2000, p.1173-1175.

2) SÃO BEDA, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Lucam, pref., v.1-4.

3) PAULO VI. Ecclesiam Suam, n.51.

4) TUYA, OP, Manuel de. Biblia Comentada. Evangelios. Madrid: BAC, 1964, v.V, p.792.