9 de Maio

DOMINGO VI da Páscoa – Ano B

Missa

ANTÍFONA DE ENTRADA cf. Is 48, 20
Anunciai com brados de alegria, proclamai aos confins da terra: O Senhor libertou o seu povo. Aleluia.

Diz-se o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Concedei-nos, Deus omnipotente,
a graça de viver dignamente estes dias de alegria
em honra de Cristo ressuscitado,
de modo que a nossa vida corresponda sempre
aos mistérios que celebramos.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

LEITURA I Actos 10, 25-26.34-35.44-48
«O Espírito Santo difundia-se também sobre os pagãos»

Nesta leitura contam-se os primeiros frutos da pregação do Evangelho entre os pagãos. A conversão e o baptismo do oficial do exército romano, de nome Cornélio, fez compreender aos primeiros cristãos, e particularmente ao próprio S. Pedro, que a graça de Jesus Cristo, anunciada no Evangelho, se destina a todos os homens, porque Deus a todos quer chamar à fé e à conversão.

Leitura dos Actos dos Apóstolos
Naqueles dias, Pedro chegou a casa de Cornélio. Este veio-lhe ao encontro e prostrou-se a seus pés. Mas Pedro levantou-o, dizendo: «Levanta-te, que eu também sou um simples homem». Pedro disse-lhe ainda: «Na verdade, eu reconheço que Deus não faz acepção de pessoas, mas, em qualquer nação, aquele que O teme e pratica a justiça é-Lhe agradável». Ainda Pedro falava, quando o Espírito desceu sobre todos os que estavam a ouvir a palavra. E todos os fiéis convertidos do judaísmo, que tinham vindo com Pedro, ficaram maravilhados ao verem que o Espírito Santo se difundia também sobre os gentios, pois ouviam-nos falar em diversas línguas e glorificar a Deus. Pedro então declarou: «Poderá alguém recusar a água do Baptismo aos que receberam o Espírito Santo, como nós?». E ordenou que fossem baptizados em nome de Jesus Cristo. Então, pediram-Lhe que ficasse alguns dias com eles.
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 97 (98), 1.2-3ab.3cd-4 (R. cf. 2b)
Refrão: O Senhor manifestou a salvação
a todos os povos. Repete-se
Ou: Diante dos povos
manifestou Deus a salvação. Repete-se

Cantai ao Senhor um cântico novo
pelas maravilhas que Ele operou.
A sua mão e o seu santo braço
Lhe deram a vitória. Refrão

O Senhor deu a conhecer a salvação,
revelou aos olhos das nações a sua justiça.
Recordou-Se da sua bondade e fidelidade
em favor da casa de Israel. Refrão

Os confins da terra puderam ver
a salvação do nosso Deus.
Aclamai o Senhor, terra inteira,
exultai de alegria e cantai. Refrão

LEITURA II 1 Jo 4, 7-10
«Deus é amor»

A revelação última de Deus ao homem é a de que Ele é amor. E o testemunho de que é assim é o facto de Ele nos ter enviado o seu Filho, para que, por Ele, nos tornássemos filhos de Deus. Nesta fraternidade divina só o amor pode ser o móbil de toda a actividade entre os irmãos.

Leitura da Primeira Epístola de São João
Caríssimos: Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que vivamos por Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amámos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados.
Palavra do Senhor.

ALELUIA Jo 14, 23
Refrão: Aleluia. Repete-se
Se alguém Me ama, guardará a minha palavra.
Meu Pai o amará e faremos nele a nossa morada. Refrão

EVANGELHO Jo 15, 9-17
«Ninguém tem maior amor
do que aquele que dá a vida pelos amigos»

Deus é amor. Ele revelou-Se como tal, principalmente ao dar-nos o seu Filho, Jesus, como nosso Salvador. A Igreja, que é o corpo de Jesus e a sua presença sobre a terra, tem como lei fundamental a lei do amor; tendo amor uns aos outros, os cristãos manifestam em si a própria vida de Deus, ao mesmo tempo que a comunicam.

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai e permaneço no seu amor. Disse-vos estas coisas, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, como Eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi a meu Pai. Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu que vos escolhi e destinei, para que vades e deis fruto e o vosso fruto permaneça. E assim, tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros».
Palavra da salvação.

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Subam à vossa presença, Senhor,
as nossas orações e as nossas ofertas,
de modo que, purificados pela vossa graça,
possamos participar dignamente
nos sacramentos da vossa misericórdia.
Por Nosso Senhor.

Prefácio pascal

ANTÍFONA DA COMUNHÃO cf. Jo 14, 15-16
Vós sereis meus amigos, se fizerdes o que vos mando, diz o Senhor. Eu pedirei ao Pai e Ele vos dará o Espírito Santo,
que permanecerá convosco para sempre. Aleluia.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Senhor Deus todo-poderoso,
que em Cristo ressuscitado nos renovais para a vida eterna,
multiplicai em nós os frutos do sacramento pascal
e infundi em nossos corações a força do alimento que nos salva.
Por Nosso Senhor.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

A medida, infinita, do nosso amor ao próximo

Fácil é relembrar, mas nem sempre o é cumprir, o mandato evangélico de amar ao próximo como a si mesmo. Pouco antes de sua Paixão, Nosso Senhor traçou os vastos limites da caridade que devemos ter uns pelos outros.

I – A iniciativa parte sempre de Deus

Se tivéssemos uma noção do amor que o Criador tem por cada um de nós, talvez fôssemos capazes de ava­liar com exatidão a medida com que devemos amá-Lo. Mas, sendo Deus a Humildade em substância, Ele frequente­mente não mostra a mão quando intervém nos acontecimentos, para nos converter ou nos sustentar na fé. Deste modo, corre­mos o risco de formar uma ideia muito irreal da solicitude divina em relação a nós.

Somos, por exemplo, católicos apostólicos romanos, e pen­samos ter sido nossa adesão à Religião verdadeira fruto de uma decisão motivada pela superioridade desta sobre as outras cren­ças. Ou seja, julgamos ter sido nós mesmos os que escolhemos a Deus, quando, por nossas próprias forças, jamais seríamos capa­zes nem sequer de praticar de maneira estável os Dez Manda­mentos.

No referente à nossa conversão, é sempre o Criador quem toma a iniciativa. Foi Ele que nos criou, Ele que nos escolheu para fazermos parte da Igreja, e é Ele quem nos dá as graças indispensáveis para segui-Lo.

Desde toda a eternidade, manifestou uma predileção gratuita por cada um de nós ao nos escolher entre as infinitas possibilidades de criaturas humanas que existem em seu divino intelecto. E, podendo nos ter destinado a uma mera felicidade natural, quis que as criaturas inteligentes participassem de sua própria vida, como bem põe em realce o padre Arintero: “Por um prodígio de amor que jamais poderemos devidamente admi­rar, e muito menos agradecer, dignou-Se nos sobrenaturalizar desde o princípio, elevando-nos nada menos do que à sua pró­pria categoria, fazendo-nos participar de sua vida, de sua infinita virtude, de suas peculiares ações e de sua eterna felicidade: quis que fôssemos deuses”.1

Ao nos criar, Deus dotou cada um com uma vocação úni­ca, específica e irrepetível, seja religiosa ou leiga. E ao longo de toda a nossa existência nos dá, ademais, graças maiores ou me­nores, mas sempre suficientes para a nossa salvação eterna.

Mais ainda. Tendo o homem caído em pecado no Paraíso, Deus poderia ter feito com que ele voltasse ao nada, arrependi­do de havê-lo criado, ou usar inúmeros caminhos para reparar a falta cometida. Pois sendo Ele ao mesmo tempo o Juiz e o Ofen­dido, nada O impedia de perdoar a dívida contraída sem nada demandar em desagravo.

Contudo, exigindo a sua honra infinita uma reparação à altura, Deus, numa indizível manifestação de amor, impossível de ser cogitada sem o pecado dos nossos primeiros pais, resol­veu entregar o seu próprio Filho à morte para nos dar a vida, como na segunda leitura (I Jo 4, 7-10) proclama São João: “Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus en­viou o seu único Filho ao mundo, para que tenhamos a vida por meio d’Ele. Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como víti­ma de reparação pelos nossos pecados” (I Jo 4, 9-10).

Encarnando-Se e passando pelos tormentos da Paixão, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade trouxe para nós um verdadeiro oceano de graças, “uma inefável comunicação amo­rosa e livre, porém íntima e inconcebível, da vida divina às cria­turas racionais, por onde o sobrenatural e o natural, o divino e o humano se juntam, se harmonizam e se identificam, sem que por isto se confundam!”.2

Tal é, em grandes traços, o amor de Deus por cada um de nós, que veremos se manifestar de forma extraordinária no Evangelho de hoje.

II – A substância do amor de Nosso Senhor por nós

Encontra-Se Nosso Senhor no Cenáculo, dando as últi­mas recomendações aos discípulos, antes de seguir para o Horto das Oliveiras, onde se daria a sua prisão.

É a despedida. “O amor àqueles pobres discípulos, desti­nados a serem os executores de seu pensamento, os continuado­res de sua obra salvadora, abrasava seu Coração, mais entranhá­vel do que nunca; mas por enquanto — embora cheios de boa vontade — desorientados, consternados, trêmulos, eles nada compreendiam de seu pensamento. Todos estes sentimentos palpitam nas declarações feitas por Jesus durante o Sermão”.3

O relacionamento entre duas Pessoas Divinas

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 9a “Como meu Pai Me amou…”

Nosso Senhor acabara de exortar os discípulos: “Permane­cei em Mim e Eu permanecerei em vós” (Jo 15, 4). E agora Ele faz esta afirmação, simples à primeira vista — “Como meu Pai Me amou” —, mas que, considerada em sua profundidade, mui­to nos ajudará a ter uma ideia mais precisa do que vem depois.

O amor do Pai pelo Filho existe desde toda a eternidade e é inexprimível em termos humanos, porque se dá entre duas Pessoas Divinas e idênticas. “Aquele que Me viu, viu também o Pai” (Jo 14, 9), disse Jesus. Reconhecendo-Se inteiramente pro­jetado no Filho e comprovando o quanto Ele é idêntico a Si, o Pai só pode amá-Lo como Ele mesmo Se ama: “Tu és o meu Fi­lho muito amado; em Ti ponho minha afeição” (Mc 1, 11).

Uma imagem humana pode nos ajudar a compreender este amor de identidade: a mãe quer o seu filho porque vê nele uma imagem, um prolongamento de si mesma, e o filho quer sua mãe por ver nela a fonte da qual proveio. Ora, o profundo vínculo natural entre mãe e filho não passa de pálida figura do existente entre o Pai e o Filho, por Ele gerado desde toda a eter­nidade. Pois do relacionamento puríssimo entre duas Pessoas Divinas que Se amam com reciprocidade, por serem idênticas, procede uma terceira: o Espírito Santo.

A Santíssima Trindade, mistério central da nossa Fé e da vida cristã, supera por completo nossa capacidade de compreen­são. “O Pai ama o Filho; é tão belo! É sua própria luz, seu es­plendor, sua glória, sua imagem, seu Verbo!… O Filho ama o Pai; é tão bom! Ele Se dá a Si mesmo, íntegra e totalmente no ato gerador, com tão amável e completa plenitude! E estes dois imensos amores do Pai e do Filho não se expressam no Céu por meio de palavras, cantos, gritos, porque o amor, chegando ao grau máximo, não fala, não canta, não grita; ele se expande in­teiro num alento, num sopro, que entre o Pai e Filho se torna, como Eles, real, substancial, pessoal, divino: o Espírito Santo”.4

Fecundidade do amor de Deus pelas criaturas

9b “…assim também Eu vos amei”.

Ora, este amor é de uma grandeza absolutamente inacessí­vel para nossa humana inteligência. E, no entanto, é o que Cris­to tem por cada um de nós, conforme indicam com tanta clareza as expressões “como” e “assim também”, as quais significam: guardadas as proporções, com a mesma intensidade e da mesma maneira.

Sendo a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Nosso Senhor não tem personalidade humana. De modo que, embora Ele tenha um amor humano perfeitíssimo, não há separação en­tre este e o próprio da sua natureza divina.

“O amor criado da Alma de Cristo é a mais alta manifes­tação do amor incriado de Deus. Das alturas da visão de Deus, desce sobre nossas almas o amor de Jesus, e neste amor reen­contramos as mesmas características tão diferentes: a mais pro­funda ternura e a fortaleza mais heroica. […] A fortaleza, a ge­nerosidade de seu amor a nós, manifesta-se cada vez mais desde o Presépio até a Cruz. […] Ninguém jamais nos amou nem nos amará como Cristo”.5 Como seremos, então, capazes de retri­buir-Lhe?

Voltando à imagem do amor materno, sabemos perfeita­mente como ele leva a mãe a fazer tudo por seu filho. O senti­mento humano, todavia, não passa de um paupérrimo reflexo do amor de Deus, porque este é tão rico e fecundo que, conforme ensina São Tomás, “infunde e cria a bondade nas coisas”.6 Todo bem existente no universo tem sua origem nesta benquerença divina que, ao se aplicar sobre as criaturas racionais, lhes infun­de a caridade e as santifica.

Contra isso se insurgem, muitas vezes, nossas faltas e mi­sérias. Deus, contudo, nos quer apesar delas e, às vezes até, por causa delas. Olhando para aqueles que caíram, Ele “tem pieda­de da grande miséria a que os conduziu o pecado; leva-os ao arrependimento sem julgá-los com severidade. Como o pai do filho pródigo, abraça o filho desafortunado por sua falta; perdoa a mulher adúltera na iminência de ser lapidada; acolhe a Mada­lena arrependida e abre-lhe em seguida o mistério de sua vida íntima; fala da vida eterna à samaritana, apesar de sua condu­ta; promete o Céu ao bom ladrão. […] Muitos se afastam d’Ele, mas Ele não expulsa ninguém. E quando nos afastamos, interce­de pelos ingratos, como rogou por seus verdugos”.7

Quão diferente é este puríssimo amor divino do sentimen­to romântico e egoísta que o mundo hoje ousa chamar de amor, maculando o sentido mais profundo desta palavra!

Nosso Senhor espera reciprocidade

9c “Permanecei no meu amor”.

Nosso Senhor conclui a impressionante afirmação acima analisada — “assim também Eu vos amei” — com uma não menos comovedora exortação: “Permanecei no meu amor”. É como se nos dissesse: “Aproveitem esta minha benquerença e façam tudo para não desmerecê-la. Fiquem ao alcance do meu afeto e deixem que ele se desdobre por cada um”.

Quem ama deseja ser amado e encontra nesta reciproci­dade sua alegria. Um mestre espera dos seus alunos correspon­dência ao afeto que ele lhes tem, e um comandante que preza o seu exército fica contente de ver que seus soldados também o estimam. Guardadas as proporções, o mesmo acontece com Deus, e por isso exclama São Bernardo: “Grande coisa é o amor, contanto que ele retorne a seu princípio, remonte à sua origem e à sua fonte, de onde tire sempre novas águas para fluir sem ces­sar. […] Quando Deus ama, Ele não pede outra coisa senão ser amado, pois Ele não ama senão para ser amado, sabendo que o próprio amor tornará felizes aqueles que O amam”.8

É preciso, pois, que atuemos com a mesma correspondên­cia em relação ao substancioso amor que Jesus nos dá, tornan­do-nos dignos de ser queridos por Ele. E para isso, basta não pormos obstáculos ao afeto que Ele tem por cada um. Se assim procedermos, não será preciso esforço para sermos santos, mas sim para não sê-lo. Não é outro o sentido da expressão “Si tú Le dejas… — Se tu O deixas…”,9 repetida com frequência por Santa Maravilhas de Jesus a suas filhas espirituais.

O amor se prova com as obras

10 “Se guardardes os meus Mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu guardei os Mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”.

O modo de permanecer no amor recíproco iniciado por Deus está, diz-nos aqui Jesus, em observar os seus Mandamen­tos, porque o amor se prova com as obras. Da mesma forma que demonstramos estima por um superior terreno seguin­do as determinações que ele nos dá, para permanecermos no amor de Deus é preciso que guardemos sua Lei. Entretanto, jamais conseguiremos cumprir os preceitos divinos sem amar o Legislador.

Explica o padre Garrigou-Lagrange: “Devemos amá-Lo como ao grande amigo que primeiro nos amou e é infinitamente melhor, em Si mesmo, do que todos os seus benefícios soma­dos. Dizer que devemos amá-Lo assim é afirmar que precisamos querer o cumprimento de sua santa vontade, com eficácia, ex­pressa por seus preceitos; ou seja, devemos desejar que Ele rei­ne de fato no mais profundo de nossas almas, e seja glorificado por toda a eternidade”.10

Exemplo arquetípico e supremo desta reversibilidade é o pró­prio Jesus. A prova da integridade do seu amor pelo Pai estava nas virtudes e atos por Ele praticados. Pois o enlevo por um superior,

afirma Plinio Corrêa de Oliveira,11 não se desdo­bra apenas em veneração e ternura, mas deve trazer como fruto o serviço, a obediência e o holocausto. Nosso Senhor permaneceu no Pai e o Pai permaneceu n’Ele porque Cristo jamais deixou de cumprir nem uma vírgula da Lei. Pelo contrário, submeteu-Se de maneira perfeitíssima aos desígnios do Pai, até a morte, e morte de Cruz.

Deus é a Alegria em essência

11 “Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.

Deus é a própria Alegria em essência, e seria uma blasfê­mia afirmar que Ele poderia Se encontrar deprimido, triste ou desanimado. Porque, sendo em substância aquilo que possui, não pode haver em Deus, de nenhuma forma, qualquer mancha nem resquício de imperfeição. Tudo n’Ele é perfeito e está to­talmente ordenado para a própria finalidade, que é Ele mesmo.

Fomos criados por Deus e para Deus; Ele é nossa causa eficiente e nosso fim último. Por esta razão, fazermos todas as coisas n’Ele e por amor a Ele é o único meio de alcançarmos a felicidade para a qual fomos chamados. Não é na posse de riquezas, poder ou qualquer outro bem temporal que se encon­tra nesta Terra a alegria autêntica, e sim em praticar a virtude e guardar os seus Mandamentos.

Feliz é aquele que sente em si o júbilo de uma boa cons­ciência, que nada paga nem supera. O egoísmo causa tristeza, frustração e desânimo. A verdadeira felicidade só se encontra na inocência!

Um mandamento novo

12 “Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei. 13 Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos”.

Tudo o que até agora foi dito, Jesus sintetizará num man­damento que se tornará uma das principais pilastras da Nova Aliança: “amai-vos uns aos outros, assim como Eu vos amei”. Não se trata de um conselho ou sugestão, senão de um verdadeiro mandato que, vindo de Deus, deve ser rigidamente obedecido como lei e não pode ser violado de modo algum.

Na Antiguidade, também existia amor — por exemplo, en­tre os membros de uma família —, mas este era ainda defectivo. Se Cristo não tivesse Se encarnado e nos apresentado a arqueti­pia do relacionamento entre o Pai e o Filho, que é tão perfeito a ponto de constituir uma terceira Pessoa Divina, jamais poderia a humanidade ter conhecido esta sublime benquerença que infun­de a bondade e transforma.

Jesus trouxe para a Terra uma nova e riquíssima forma de amor, ensinou-a com sua vida, palavras e exemplo, e beneficiou­-nos com sua graça, sem a qual nos seria impossível praticá-la. Ora, assim quer também Ele que nos amemos: tomando a inicia­tiva de estimar os outros, sem deles esperar retribuição, e estan­do dispostos a dar tudo pelo próximo, até a própria vida, a fim de ajudá-lo a alcançar a perfeição.

O grande drama dos dias de hoje é causado justamen­te pela falta deste amor. E, para deixar bem claro até onde ele deve ser levado, Nosso Senhor dá um exemplo prenunciador do seu holocausto na Cruz, sacrifício supremo que, por um prisma meramente humano, poderia ser qualificado como loucura.

Jamais na História alguém havia amado seus amigos a ponto de se entregar por eles como vítima expiatória. Ora, se Cristo, sendo Deus, Se imolou por nós, qual deve ser a nossa retribuição?

Em que consiste a verdadeira amizade

14 “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando”.

Amigo: palavra sui generis, cujo profundo significado foi, no entanto, conspurcado ao longo dos séculos.

Por cima da simples consonância ou simpatia, há na ver­dadeira amizade um elemento capital: desejar o bem a quem se estima. E, por isso, ela só pode estar fundada em Deus, visto não ser possível ambicionar para alguém nada melhor do que sua salvação eterna.

Reciprocamente, a aliança que possa existir entre dois que trilham juntos as vias do mal, e se estimam por causa do pecado que praticam, não pode ser considerada amizade, porque eles se desejam, um para o outro, o que há de pior, isto é, a condenação da própria alma.

15 “Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu senhor. Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai”.

Deus criou a humanidade para que o amor de Jesus Cristo tivesse a possibilidade de se espraiar e difundir. Enquanto Deus, Ele Se basta, e enquanto Homem sente a necessidade de Se ex­pandir. Por tal razão, eleva os Apóstolos à categoria de amigos e lhes dá a conhecer tudo o que ouviu do Pai.

Naquela época, o servo não tinha nenhum direito. Devia obediência irrestrita ao seu senhor, cabendo-lhe executar o que lhe era mandado, sem necessidade de entender os motivos. O amigo, pelo contrário, tinha certa paridade com o outro e co­nhecia sua vontade. Dá, mas também recebe.

Nesta passagem, Cristo afirma ter deixado de ser apenas Senhor para Se tornar também nosso Amigo. “Amigo imensa­mente rico, que pode encher todo o vazio de nossa vida; verda­deiro Amigo que nos concede o que legitimamente Lhe pedi­mos; Amigo atenciosíssimo, que não Se aborrece quando Lhe pedimos […], mas nos solicita tratar com Ele de nossas misé­rias”.12

Ao Se encarnar e nos revelar as maravilhas da Boa-nova, Jesus não reservou para Si aquilo que ouviu do Pai, mas trans­mitiu-o numa medida proporcionada à nossa natureza. Ora, conhecendo-O, amando-O e cumprindo os seus Mandamentos, transformamo-nos em verdadeiros amigos seus, porque amigo é aquele que conhece a vontade do outro e a põe em prática.

A lei que deve vigorar entre os cristãos

16 “Não fostes vós que Me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que então pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. 17 Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.

Mais uma vez frisa o Divino Mestre ter sido Deus quem nos escolheu e primeiro nos amou, pois, como vimos no início deste comentário, o homem tende a ficar com a impressão de ter sido ele, pelo seu esforço e mérito pessoal, quem tomou a ini­ciativa de segui-Lo. E para sublinhar a necessidade de amar aos outros como Ele nos ama, Jesus repete mais uma vez, como uma ordem, o mandamento que acabara de formular.

Só assim, tendo pela salvação dos outros o mesmo empe­nho que Nosso Senhor Jesus Cristo demonstra, obteremos, por meio de nosso apostolado, frutos que permaneçam. E esta é também a condição para vermos atendidos os pedidos que faça­mos ao Pai.

Desejamos ter sucesso em nosso apostolado e em nossa oração? Amemo-nos uns aos outros como Jesus nos ama. Não queiramos levar uma vida egoísta, fechados numa imaginária torre de marfim, cultivando nossas qualidades e dons para pro­veito próprio, mas interessemo-nos pelos nossos irmãos, quei­ramo-los, procuremos o seu bem. É esta a lei que deve vigorar entre os cristãos.

III – O verdadeiro sentido da palavra “amor”

A Liturgia deste 6º Domingo da Páscoa, tão rica em ensi­namentos, situa a palavra amor numa perspectiva com­pletamente diversa daquela à qual estamos acostuma­dos, convidando-nos para o mais elevado relacionamento que seja possível alcançar nesta Terra: a amizade com Jesus.

Se nos primórdios da nossa era os pagãos, ao se referir aos cristãos, diziam: “Vede como eles se amam e como estão dispos­tos a morrer um pelo outro”,13 nos nossos dias, tão tristemente paganizados, este afeto deve brilhar de modo a atrair aqueles que se afastaram da Igreja. E, para isso, precisamos expungir de nossas almas todos os sentimentalismos, romantismos ou egoís­mos que possam existir nelas.

“Caríssimos: Amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhe­ce Deus” (I Jo 4, 7), exorta na segunda leitura o Apóstolo São João. Quem ama com verdadeiro amor não busca ser adorado pelo outro, nem exige reciprocidade. Procura, pelo contrário, ser educado, cuidadoso e zeloso para com todos, sem fazer acepção de pessoas, visando refletir de alguma maneira, no convívio do dia a dia, o afeto inefável que Cristo manifestou por cada um de nós durante sua Paixão.

Peçamos, pois, neste domingo, a graça de reger nosso amor a Deus e ao próximo segundo a medida infinita da ben­querença divina. E tenhamos bem presente em nossos corações o alerta que em sua Encíclica Caritas in veritate o Papa Bento XVI nos fez: “Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbi­trariamente. É o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emoções e opiniões contingentes dos indi­víduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que é realmente”.14

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1) GONZÁLEZ ARINTERO, OP, Juan. La Evolución mística. Madrid: BAC, 1952,

p.59.

2) Idem, p.55.

3) BOVER, SJ, José María. Comentario al Sermón de la Cena. Madrid: BAC, 1951, p.18.

4) ARRIGHINI, Angelico. Il Dio ignoto: lo Spirito Santo. Torino-Roma: Marietti, 1937, p.34.

5) GARRIGOU-LAGRANGE, OP, Réginald. El Salvador y su amor por nosotros. Madrid: Rialp, 1977, p.320; 323-324.

6) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I, q.20, a.2.

7) GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., p.322-323.

8) SÃO BERNARDO. Sermones sobre el Cantar de los Cantares. Sermón LXXXIII, n.4. In: Obras Completas. Madrid: BAC, 1955, v.II, p.556.  

9) GRANERO, Jesús María. Madre Maravillas de Jesús. Biografía espiritual. Madrid: Fareso, 1979, p.139.

10) GARRIGOU-LAGRANGE, op. cit., p.167-168.

11) Cf. CORRÊA DE OLIVEIRA, Plinio. Conferência. São Paulo, 8 abr. 1967.  

12) GOMÁ Y TOMÁS, Isidro. El Evangelio explicado. Año tercero de la vida pública de Jesús. Barcelona: Rafael Casulleras, 1930, v.III, p.213.

13) TERTULIANO. Apologeticum, XXXIX: ML 1, 471.

14) BENTO XVI. Caritas in veritate, n.3.