Liturgia

3 de Março

III Domingo da Quaresma – Ano B

MISSA

ANTÍFONA DE ENTRADA Salmo 24, 15-16

Os meus olhos estão voltados para o Senhor,
porque Ele livra os meus pés da armadilha.
Olhai para mim, Senhor, e tende compaixão
porque estou só e desamparado.

Ou Ez 36, 23-26
Quando Eu manifestar em vós a minha santidade,
reunir-vos-ei de todos os povos;
derramarei sobre vós água pura,
e ficareis limpos de toda a iniquidade.
Eu vos darei um espírito novo, diz o Senhor.

Não se diz o Glória.

ORAÇÃO COLECTA
Deus, Pai de misericórdia e fonte de toda a bondade,
que nos fizestes encontrar no jejum,
na oração e no amor fraterno
os remédios do pecado,
olhai benigno para a confissão da nossa humildade,
de modo que, abatidos pela consciência da culpa,
sejamos confortados pela vossa misericórdia.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

Em vez das leituras a seguir indicadas, podem utilizar-se as do ano A, se for mais oportuno.

LEITURA I – Forma longa Ex 20, 1-17
«A lei foi dada por Moisés» (Jo 1, 17)

Leitura do Livro do Êxodo
Naqueles dias, Deus pronunciou todas estas palavras: «Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, dessa casa de escravidão. Não terás outros deuses perante Mim. Não farás para ti qualquer imagem esculpida, nem figura do que existe lá no alto dos céus ou cá em baixo na terra ou nas águas debaixo da terra. Não adorarás outros deuses nem lhes prestarás culto. Eu, o Senhor teu Deus, sou um Deus cioso: castigo a ofensa dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que Me ofendem; mas uso de misericórdia até à milésima geração para com aqueles que Me amam e guardam os meus mandamentos. Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus, porque o Senhor não deixa sem castigo aquele que invoca o seu nome em vão. Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares. Durante seis dias trabalharás e levarás a cabo todas as tuas tarefas. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo nem a tua serva, nem os teus animais domésticos, nem o estrangeiro que vive na tua cidade. Porque em seis dias o Senhor fez o céu, a terra, o mar e tudo o que eles contêm; mas no sétimo dia descansou. Por isso, o Senhor abençoou e consagrou o dia de sábado. Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença».
Palavra do Senhor.

LEITURA I – Forma breve Ex 20, 1-3.7-8.12-17
«A lei foi dada por Moisés» (Jo 1, 17)

Leitura do Livro do Êxodo
Naqueles dias, Deus pronunciou todas estas palavras: «Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egipto, dessa casa de escravidão. Não terás outros deuses perante Mim. Não invocarás em vão o nome do Senhor teu Deus, porque o Senhor não deixa sem castigo aquele que invoca o seu nome em vão. Lembrar-te-ás do dia de sábado, para o santificares. Honra pai e mãe, a fim de prolongares os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te vai dar. Não matarás. Não cometerás adultério. Não furtarás. Não levantarás falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo; não desejarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo nem a sua serva, o seu boi ou o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença».
Palavra do Senhor.

SALMO RESPONSORIAL Salmo 18 (19), 8.9.10.11 (R. Jo 6, 68 c)
Refrão: Senhor, Vós tendes palavras de vida eterna. Repete-se

A lei do Senhor é perfeita,
ela reconforta a alma;
as ordens do Senhor são firmes,
dão sabedoria aos simples. Refrão

Os preceitos do Senhor são rectos
e alegram o coração;
os mandamentos do Senhor são claros
e iluminam os olhos. Refrão

O temor do Senhor é puro
e permanece para sempre;
os juízos do Senhor são verdadeiros,
todos eles são rectos. Refrão

São mais preciosos que o ouro,
o ouro mais fino;
são mais doces que o mel,
o puro mel dos favos. Refrão

LEITURA II 1 Cor 1, 22-25
«Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os homens,
mas sabedoria de Deus para os que são chamados»

Leitura da Primeira Epístola do apóstolo S. Paulo aos Coríntios
Irmãos: Os judeus pedem milagres e os gregos procuram a sabedoria. Quanto a nós, pregamos Cristo cruficado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
Palavra do Senhor.

ACLAMAÇÃO ANTES DO EVANGELHO Jo 3, 16
Refrão: Louvor a Vós, Jesus Cristo,
Rei da eterna glória. Repete-se
Deus amou tanto o mundo
que lhe deu o seu Filho Unigénito;
quem acredita n’Ele tem a vida eterna. Refrão

EVANGELHO Jo 2, 13-25
«Destruí este templo e em três dias o levantarei»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João
Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados às bancas. Fez então um chicote de cordas e expulsou-os a todos do templo, com as ovelhas e os bois; deitou por terra o dinheiro dos cambistas e derrubou-lhes as mesas; e disse aos que vendiam pombas: «Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai casa de comércio». Os discípulos recordaram-se do que estava escrito: «Devora-me o zelo pela tua casa». Então os judeus tomaram a palavra e perguntaram-Lhe: «Que sinal nos dás de que podes proceder deste modo?». Jesus respondeu-lhes: «Destruí este templo e em três dias o levantarei». Disseram os judeus: «Foram precisos quarenta e seis anos para se construir este templo e Tu vais levantá-lo em três dias?». Jesus, porém, falava do templo do seu corpo. Por isso, quando Ele ressuscitou dos mortos, os discípulos lembraram-se do que tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus. Enquanto Jesus permaneceu em Jerusalém pela festa da Páscoa, muitos, ao verem os milagres que fazia, acreditaram no seu nome. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que Lhe dessem informações sobre ninguém: Ele bem sabia o que há no homem.
Palavra da salvação.

Diz-se o Credo.

ORAÇÃO DOS FIÉIS

Irmãos e irmãs em Cristo: Adoremos a Deus, com toda a nossa alma, e oremos, com os outros cristãos, pela Igreja, pelo mundo e por nós próprios, dizendo (ou: cantando), com alegria:

R. Kýrie, eléison. Ou: Renovai-nos, Senhor, com a vossa graça. Ou: Salvador do mundo, salvai-nos.

1. Pela santa Igreja, pelo Papa N. e pelos bispos, para que falem de Cristo, o Salvador crucificado, e anunciem a redenção que vem da Cruz, oremos.

2. Pelos servidores da paz e da justiça, para que sejam honestos, imparciais e verdadeiros e trabalhem pelo bem dos cidadãos, oremos.

3. Pelos cristãos do mundo inteiro e pelos Judeus, para que adorem de coração sincero ao Deus único e façam dos mandamentos a sua lei, oremos.

4. Pelos homens e mulheres de toda a terra, para que não matem, não roubem e não mintam, honrem os pais, amem o próximo e sejam justos, oremos.

5. Por todos nós e pela nossa comunidade (paroquial), para que a atitude que Jesus tomou no templo nos recorde que a casa de Deus é de oração, oremos.

Senhor, nosso Deus, que nos reunistes nesta casa da Igreja para escutar e acolher a vossa palavra, fazei de nós pedras vivas do templo novo que é o vosso Filho. Ele que vive e reina por todos os séculos dos séculos

ORAÇÃO SOBRE AS OBLATAS
Concedei, Senhor, por este sacrifício,
que, ao pedirmos o perdão dos nossos pecados,
perdoemos também aos nossos irmãos.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

PREFÁCIO A Samaritana
Quando se lê o Evangelho da Samaritana, diz-se o prefácio seguinte:
Senhor, Pai santo, Deus eterno e omnipotente,
é verdadeiramente nosso dever, é nossa salvação
dar-Vos graças, sempre e em toda a parte,
por Cristo nosso Senhor.
Quando Ele pediu à samaritana água para beber,
já lhe tinha concedido o dom da fé
e da sua fé teve uma sede tão viva
que acendeu nela o fogo do amor divino.
Por isso, com os Anjos e os Santos,
proclamamos a vossa glória, cantando numa só voz:
Santo, Santo, Santo.

Quando não se lê o Evangelho da Samaritana, diz-se outro prefácio da Quaresma

ANTÍFONA DA COMUNHÃO

Quando se lê o Evangelho da Samaritana: Jo 4, 13-14
Quem beber da água que Eu lhe der, diz o Senhor,
terá em seu coração a fonte da vida eterna.

Quando se lê o outro Evangelho: Salmo 83, 4-5
As aves do céu encontram abrigo e as andorinhas um ninho para os seus filhos, junto dos vossos altares, Senhor dos Exércitos, meu Rei e meu Deus. Felizes os que moram em vossa casa e a toda a hora cantam os vossos louvores.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO
Recebemos, Senhor nosso Deus,
o penhor da glória eterna
e, vivendo ainda na terra, fomos saciados com o pão do Céu.
Nós Vos pedimos humildemente a graça de manifestar na vida
o que celebramos neste sacramento.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho,
que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo.

 

 

Excertos do livro “O inédito sobre os Evangelhos”
de autoria do Mons. João Scognamiglio Clá Dias, E.P.

Amor e castigo excluem-se?

A cena que o Evangelho do 3º Domingo da Quaresma nos desvenda parece destoar dramaticamente das outras atitudes do Senhor. O que pensar disto?

 

I – Um quadro desolador no Templo de Deus

13 Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém.

O episódio narrado por este Evangelho se passou no iní­cio da vida pública do Senhor, pouco depois de seu pri­meiro milagre em Caná da Galileia.

Pela Lei, os israelitas de todas as nações eram obrigados a se dirigir ao Templo por ocasião da Páscoa, o que levava uma grande multidão a se concentrar na Cidade Santa. Para lá seguiu também o Divino Mestre, sempre cioso em dar o exemplo de perfeita obediência à Lei, embora a ela não estivesse submetido.

Deplorável situação do Templo

14 No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados.

Ao chegar ao Templo, deparou-Se com um quadro deso­lador. A atitude que vai tomar nessa circunstância Lhe dará o ensejo de deixar, para todos os séculos, uma admirável lição da virtude da justiça, permitindo-nos contemplar um aspecto rara­mente salientado — mas quão grandioso e adorável! — de sua divina personalidade.

Não constituiu uma surpresa para Jesus o estado de desordem e profanação instalado na casa de seu Pai. Havia muito que nela se praticavam abusos, e não era por falta de uma legisla­ção clara. Na verdade, existiam proibições formais sobre o uso indevido do edifício sagrado, como, por exemplo, não poder-se atravessar o Templo para encurtar o caminho, usando-o como simples atalho.

As piores transgressões, porém, eram resultado do espírito de ganância. Recordemos as “justificativas” para a situação. Se­gundo as determinações mosaicas (cf. Lv 5, 7; 15, 14.29; 17, 3-4; etc.), por ocasião da Páscoa, além dos sacrifícios votivos, os po­bres deveriam ofertar uma pomba e os ricos, um boi ou uma ove­lha. Ademais, todo judeu maior de 20 anos devia pagar anual­mente meio siclo (cf. Ne 10, 33-35; Mt 17, 24), na moeda em uso no Templo (cf. Ex 30, 13). Ora, a grande maioria dos peregrinos chegava de boa distância, sendo-lhes, portanto, muito incômodo transportar na viagem as oferendas, e por isso preferiam com­prá-las em Jerusalém. Lucrando não pouco com esse comércio, os sacerdotes o permitiam, baseados em razões práticas.

Ocupando um pátio do Templo, aqueles variados rebanhos misturavam a cacofonia de seus mugidos e balidos às discussões, vozerio e gritaria dos comerciantes e fregueses. Eis, em síntese, a triste cena presenciada por Jesus ao entrar na casa de Deus, convertida, assim, em um verdadeiro mercado oriental.

Divino açoite

15a Fez então um chicote de cordas…

O Homem-Deus — Aquele a cuja voz os mares e os ven­tos obedeceriam (cf. Mt 8, 27), pela qual a lepra, a cegueira, a surdez, a paralisia desapareceriam (cf. Mt, 11, 5); Aquele que, com o brado “Lázaro, vem para fora!” (Jo 11, 43), ressuscita­ria um morto de quatro dias; Aquele que veio nos trazer a vida (cf. Jo 6, 47) — põe-Se a tecer um chicote de cordas.

Um simples ato de sua vontade onipotente seria suficien­te para aniquilar todas aquelas criaturas: homens, animais e di­nheiro. Por que desejou Ele empunhar um látego?

Encontramos uma bela explicação no grande Dionísio Areopagita: “Não é possível que o Raio divino nos ilumine se não está espiritualmente encoberto na variedade de sagrados véus e a providência paternal de Deus não o tenha acomodado à nossa forma natural e própria”.1 Como somos compostos de cor­po e alma, não nos bastam as abstrações do raciocínio. Nossos sentidos corporais pedem figuras palpáveis, que nos auxiliem a compreender a verdade de modo profundo. Temos necessidade das asas dos símbolos para voar até Deus.

Um chicote saído das mãos de Jesus!

Na sua vida pública — recém-iniciada —, quantas vezes não dirá Ele aos pecadores arrependidos: Vai, teus pecados estão perdoados! (cf. Mt 9, 2; Mc 2, 5; Lc 5, 20; 7, 48). Sua misericór­dia constituirá um enorme escândalo para os fariseus. Mas agora, aquelas divinas mãos sedentas de abençoar, curar, perdoar e sal­var teceram um flagelo… para castigar os infratores da Lei.

Que extraordinária relíquia este chicote! Se tivesse sido conservado pelos primeiros cristãos, certamente seria objeto de culto em alguma catedral até os dias de hoje.

Movido por um zelo ardente

15b …e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”

Na vastidão do Templo e entre o bu­lício daquela multi­dão, a violência em­pregada pelo Divino Mestre deve ter sido inédita. Que causas de profanação foram ob­jeto de sua cólera? Em primeiro lugar, os fautores conscientes: os vendedores e os cambistas, como ain­da os próprios comprado­res, segundo afirmam dois evangelistas (cf. Mt 21, 12; Mc 11, 15). E até mesmo ovelhas, bois, pombas, dinheiro e mesas foram alvo da divina in­dignação.

Comentando a cena, Orígenes2 vê no gesto de Jesus uma de­monstração de seu poder, e diz tratar-se de um verdadeiro mila­gre, maior até do que o operado nas Bodas de Caná, pois o ímpeto de um único homem foi suficiente para desbaratar milhares. Bas­taria a alguém contemplar esse heroísmo para concluir não ser Je­sus o simples filho de um carpinteiro, acrescenta o mesmo autor.

A ação de Jesus com o açoite em punho se inseria entre ou­tras atitudes motivadas por seu zelo ardente pela santidade da casa de Deus. Por um trecho de São Marcos, podemos ver a preo­cupação do Senhor em conservar, até nas minúcias, a sacralidade daquele lugar santo: “Não consentia que ninguém transportasse algum objeto pelo Templo” (Mc 11, 16). Este versículo é prova cabal de que a dramática expulsão dos vendilhões não foi uma atitude intempestiva. Reforçando esta ideia, o Evangelista acres­centa: “[Jesus] ensinava-lhes nestes termos: ‘Não está porventura escrito: A minha casa chamar-se-á casa de oração para todas as nações? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões’” (Mc 11, 17).

II – O amor à repreensão

Não bastaria o mero ensinamento para inculcar nas men­tes a maneira digna de se portar no Templo? Ainda mais se levarmos em consideração que o Mestre era o próprio Deus? Por que aplicar uma correção tão forte?

São perguntas que facilmente surgem devido ao definha­mento, na sociedade atual, da noção de um prêmio e de um cas­tigo por nossa conduta moral. Como lamentável consequência disso, vem se esvaecendo a compreensão dos benefícios da cor­reção. Sim, lamentável, como se pode deduzir desta afirmação do Livro dos Provérbios: “Perecerá por falta de correção e se desviará pelo excesso de sua loucura” (5, 23).

Quem ama, corrige e castiga

Quanto se prega hoje em dia contra a disciplina, a ponto de se deformar o verdadeiro conceito de liberdade! Uma con­cepção errada, baseada nas ideias de Rousseau3 — de que todo homem é bom, e por isso deve ser deixado entregue à sua na­tureza —, penetrou em muitos ambientes, inculcando uma má­xima que poderia ser expressa assim: “Todo homem é bom, a correção é que o torna mau”.

Entretanto, o ensinamento da Escritura não deixa margem a dúvida. Os autores sagrados discordam desse ponto de vista tão comum em nossos dias, como por exemplo, nesta passagem: “A loucura apega-se ao coração da criança; a vara da disciplina afastá-la-á dela” (Pr 22, 15). E mais adiante: “Não poupes ao menino a correção: se tu o castigares com a vara, ele não mor­rerá, castigando-o com a vara, salvarás sua vida da morada dos mortos” (Pr 23, 13-14). E ainda: “Quem poupa a vara odeia seu filho; quem o ama, castiga-o na hora precisa” (Pr 13, 24).

Estas palavras talvez sejam duras para os ouvidos de hoje, todavia foram inspiradas pelo próprio Espírito Santo e devem ser recebidas com amor.

Mas, e a bondade?

A bondade do Homem-Deus é infinita e, portanto, inesgo­tável. Mas Jesus não é exclusivamente a Bondade. Ele é também a Justiça. Apesar de serem extremos opostos, castigo e bonda­de constituem contrários harmônicos. Por este motivo, numa educação sábia e virtuosa, da mesma forma que jamais podem faltar a bondade, o afeto, a misericórdia, também não pode ser desprezada a disciplina: “Vara e correção dão a sabedoria; me­nino abandonado à sua vontade se torna a vergonha da mãe” (Pr 29, 15). Nesta matéria tão delicada, nota-se uma perfeita continuidade entre o ensinamento moral do Antigo e o do Novo Testamento.

A implacável atitude de Jesus no Templo lançou por ter­ra não apenas as mesas dos cambistas, como também quaisquer objeções contra o perfeito conúbio entre justiça e misericórdia. Aquele mesmo Jesus de doce memória, como canta a Liturgia, ensina-nos neste 3º Domingo da Quaresma a necessidade da cor­reção, através da ilustração viva de um de seus princípios enun­ciados no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!” (Mt 5, 6). E no Apocalipse nos torna patente a aliança indissolúvel entre amor e repreensão: “Eu repreendo e castigo aqueles que amo” (3, 19).

Benéficos efeitos da correção

O Apóstolo ― ele próprio objeto de uma repreensão e castigo do Senhor ―, após ter sido “derrubado do cavalo” e ter ouvido uma voz de timbre a um tempo ameaçador e bondoso, inquirindo-o por sua injusta perseguição, não tardou em excla­mar: “Senhor, que devo fazer?” (At 22, 10). Converteu-se no mes­mo ato. Foi ele quem, anos mais tarde, escreveria aos hebreus es­tas belas palavras: “Estais esquecidos da palavra de animação que vos é dirigida como a filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor. Não desanimes, quando repreendido por Ele; pois o Senhor corrige a quem ama e castiga todo aquele que reconhe­ce por seu filho. Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é co­mum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos. Aliás, temos na Terra nossos pais que nos corrigem e, no entanto, os olhamos com respeito. Com quanto mais razão nos havemos de submeter ao Pai de nossas almas, o qual nos dará a vida? Os primeiros nos educaram para pouco tempo, segundo a sua própria conveniên­cia, ao passo que este o faz para nosso bem, para nos comunicar sua santidade. É verdade que toda correção parece, de momento, antes motivo de pesar que de alegria. Mais tarde, porém, granjeia aos que por ela se exercitaram o melhor fruto de justiça e de paz. Levantai, pois, vossas mãos fatigadas e vossos joelhos trêmulos. Dirigi os vossos passos pelo caminho certo. Os que claudicam tor­nem ao bom caminho e não se desviem” (Hb 12, 5-13).

Torna-se evidente quanto o castigo nos auxilia a crescer no temor a Deus, que é o princípio da sabedoria (cf. Sl 110, 10), faz­-nos abençoados por Deus (cf. Sl 113 B, 13), torna ouvidas nos­sas orações e assegura nossa salvação (cf. Sl 144, 19).

Os maus detestam ser corrigidos

17 Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. 18 Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?”

Este é um dos efeitos do castigo sobre os bons: produz uma admiração amorosa e faz desabrochar a estima pela sabedoria. Mas fixemos agora nossa atenção na atitude dos maus.

Por sua reação, percebe-se o quanto os príncipes dos sa­cerdotes e escribas se sentiram atingidos no castigo infligido por Jesus. Em nenhum momento vão discutir a liceidade em si da pre­sença dos vendilhões no Templo, pois conheciam perfeitamente os pre­ceitos e em que medida os transgrediam. Nem sequer acusam Jesus de ter usurpado os poderes deles. Usando de artima­nha, pedem-Lhe um mila­gre como sinal de sua au­toridade. Não os motivava o zelo pela casa de Deus. Se assim o fosse, teriam elogiado Jesus pela nobre e eficaz ação contra os pro­fanadores.

O homem mau não aceita a correção, porque não ama a Lei de Deus. Ao contrário do homem sábio, que ama quem o repreende (cf. Pr 9, 8), eles detestavam a correção, por não bus­carem a sabedoria; sentiam horror ao castigo, por não quererem emendar-se de suas faltas.

A força de presença do Homem-Deus

19 Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”. 20 Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e Tu o levantarás em três dias?” 21 Mas Jesus estava falando do Templo do seu Corpo. 22 Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que Ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra d’Ele.

Jesus não põe em dúvida o direito de os sacerdotes exigirem uma prova de sua autoridade. Por ser a Sabedoria Eterna, acei­tou o desafio, fazendo-lhes uma proposta enigmática. Eles, in­terpretando-a literalmente, como se Jesus estivesse Se referindo ao edifício material, responderam com ironia: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e Tu o levantarás em três dias?”. Mas o Evangelista acrescenta: Jesus Se referia ao “Templo de seu Corpo”, santuário vivo da divinda­de, que Ele ressuscitaria três dias após a Crucifixão no Calvário. Jesus costumava exprimir-Se de modo velado, quando Se encon­trava diante de um público hostil.

Os responsáveis pelo Templo não O acusaram de blasfê­mia, nem sequer Lhe aplicaram alguma sanção. Tal era a força de presença do Filho do Homem que, apesar de ser impossível uma interpretação literal de suas palavras — reerguer em três dias um edifício cuja construção demorou 46 anos! —, deixaram de inquiri-Lo sobre seu poder, resolvendo aguardar os aconteci­mentos.

Como reagiu Jerusalém em face de Jesus

23 Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. 24 Mas Jesus não lhes dava crédito, pois Ele conhecia a todos; 25 e não precisava do testemunho de ninguém acerca do ser humano, porque Ele conhecia o homem por dentro.

Os últimos trechos do Evangelho de hoje nos colocam em alerta contra um defeito muito perigoso. Nosso Senhor, enquan­to a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, discerne o mais íntimo de suas criaturas, desde toda a eternidade. Ele sabe ava­liar tanto a devoção desinteressada de uma alma nobre quanto a sanha apropriativa daqueles que se entregam aos pendores do pecado original.

O Divino Mestre, penetrando aqueles corações, notava que apenas queriam d’Ele se servir. Sim, não é suficiente im­pressionar-nos com milagres e, por isso, crer no nome de Jesus. Nosso Redentor deseja de nós um amor feito de reciprocidade. “A fé sem obras é morta” (Tg 2, 26), diz São Tiago. Diante do Homem-Deus é necessário deixar-se arrebatar de enlevo e ve­neração, entregar a alma sem obstáculos nem reservas, e pautar a própria vida por seus ensinamentos.

III – Com Maria, adoremos Jesus na sua totalidade

Ao terminar estas considerações, relacione­mos as duas lições tiradas do Evangelho do 3º Domingo da Quaresma, narrado por São João. Nesta segunda parte, ele nos exor­ta a extrair de nossos corações o pragmatismo, o egoísmo de querermos nos servir de Jesus, das graças e da Religião apenas para nosso pro­veito pessoal, crendo em seu nome, e não mudando de vida e de costumes. É cor­reto conservarmos nossa maneira de viver e nossos costumes, desde que não sejam ilícitos. Indispensável é, contudo, ter a alma enlevada e sub­missa à moral e Religião ensinadas por Nosso Senhor, adorando-O em todos os aspectos de suas virtudes, entusiasmada por sua misericórdia e também por sua justiça, como Je­sus mostrou no episódio dos vendi­lhões do Templo. Ele quer ser ado­rado por nós e adorado na sua tota­lidade.

Elejamos Maria — insuperável modelo desse amor a Jesus na sua integridade — como nossa mestra e guia da entrega sem limites que deve­mos fazer a Ele, adorando-O na har­monia de suas virtudes aparentemente contraditórias. ²

 

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1) DIONÍSIO AREOPAGITA. La Jerarquía CelesteC.I, n.2 [121 B]. In: Obras Com­pletas. 2.ed. Madrid: BAC, 1995, p.120.

2) Cf. ORÍGENES. Commentaria in Evangelium Ioannis. T.X, n.16: MG 14, 186.

3) Entre as diversas obras deste filósofo francês ver, por exemplo: ROUSSEAU, Jean­-Jacques. Émile ou De l’éducation. In: OEuvres Complètes. Paris: Dalibon, 1824, t.I.

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